Enquanto tenta ser adulta, Disney é cafona e sem emoção

A heroína em questão precisa confrontar um mundo de homens, a cultura dos guerreiros que não deixa espaço para mulheres, algumas montanhas e muralhas para sua aprovação. Ela finge ser homem e vai à guerra. Em sua jornada, o belo soa enjoativo, as cores em excesso mais atrapalham do que ajudam, o mundo limpinho e idealizado cansa.

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Com Mulan, de Niki Caro, outro de seus live actions baseados em animações, a Disney tenta parecer mais adulta, mas não o suficiente para se desprender por completo de suas bases. Chega-se neste caso a um meio-termo estranho no qual a dor e a entrega esperada nunca são atingidas, nem a feliz idiotia permitida às animações.

Mulan pede obediência ao cinema épico sem proporcionar a grandeza esperada, com sequências de ação recicladas e desprovidas de pulsão. Bom momento para pensar nessa tentativa de parecer adulto, ou sério, está na sequência em que os guerreiros encontram os corpos de alguns companheiros, clara referência visual a Kagemusha, de Kurosawa.

Essa beleza feita a pinceladas digitais cobra seu preço: do cenário que deveria exalar horror as personagens estão sempre apartadas, em outro plano. Flutuam por ele, a ele tentam se integrar. Visualmente, a referência a Kurosawa soa mal feita, para não dizer insultante em um cinema que, sabemos de antemão, não quer para si o horror.

Com Kagemusha, Kurosawa quer o oposto: o horror pode, sim, ser integrado ao sonho, à pintura, e daí o belo – com todas as reverberações do mundo real, a começar pela guerra – é materializado. Mulan está mais próximo de um episódio da série infantil Power Rangers do que de qualquer filme do grande mestre japonês.

Basta reparar, por exemplo, na primeira batalha, momento em que os vilões invadem um castelo do imperador e matam os soldados. Em seus cavalos, os invasores, a começar pela personagem de Jason Scott Lee, servem a um quadro que não os deixa sair do lugar. Outra vez flutuam, cavalgam ao digital, em novo momento vergonhoso.

O que falar, então, da bruxa interpretada por Gong Li? Seu traje exala os contornos plásticos dos piores seriados orientais. A Disney parece ter encontrado uma forma – entre imobilismo e cafonice – da qual é refém o filme todo, muito longe de seus tempos de glória.

Em algo como Mulan a criadora é a Disney, ainda que não se negue o papel de sua cineasta ao resultado final. Trata-se de um filme de estúdio, de marca, um amontoado de rostos orientais conhecidos para a venda ao público ocidental e, como se sabe, ao oriental também. Como outros estúdios americanos, a Disney crê na infantilização global.

Alguém poderá argumentar, não sem alguma razão, que o filme tem o mérito de valorizar a força feminina nas telas. No entanto, há em Mulan algo irônico: a verdadeira mulher emancipada do filme, aquela que não se dobrou a nenhum homem ou reino, não é a personagem-título (Yifei Liu), mas a bruxa de Gong Li. Alguém arrisca adivinhar qual desfecho espera por ela e qual será concedido à bela e obediente protagonista?

(Mulan, Niki Caro, 2020)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
Destacamento Blood, de Spike Lee

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