Lolita, de Stanley Kubrick

O fim da delicadeza pode ser visto na pintura cravada por balas, também na menina transformada em mulher, cerveja à mão, ao lado do marido medíocre, em vida medíocre, na parte final de Lolita. Os adultos não resistem à tamanha delicadeza, beleza natural, jovem; consumidos pelo desejo não concretizado, são tragados ao fundo do poço.

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O rascunho do adulto idiota é dado a Humbert Humbert (James Mason). Outros ajudam a compor esse painel de gente hipócrita agarrada à religião, aos bailinhos das cidades pequenas, ao clima bairrista em que todos sabem algo sobre todos, aos comentários que correm de um lado a outro do salão de festa enquanto se finge o comportamento adequado.

Para amar Lolita e com ela seguir vivendo, só resta a Humbert fugir. Alguns dirão, com razão, que ele foge porque cometeu um crime. Movido pelo desejo à ninfeta, seus sentimentos convertem-no em prisioneiro, no “pai” chato que precisa controlar a “filha”, que não suporta saber da existência de algum garoto pelas redondezas.

Com roteiro de Vladimir Nabokov, autor do livro, Stanley Kubrick faz uma comédia que mescla delícias proibidas à necessidade de viver sob a fachada da moralidade das pequenas cidades, das famílias que ainda guardam as cinzas dos matriarcas falecidos no altar com signos religiosos, ao lado da cama na qual se deseja lançar o amante recém-chegado.

Humbert é o professor culto à procura de um quarto para alugar. Vai à casa simpática da viúva Charlotte Haze, descrita por Pauline Kael como “feroz abutre cultural”. Para ela, a mulher mais irritante do mundo, ninguém melhor que Shelley Winters, especialista nesse tipo de papel: a mulher obstáculo, a exemplo do que fez em Um Lugar ao Sol.

O problema de Humbert custa a dar as caras. Atende pelo nome de Clare Quilty (Peter Sellers). Podia ser um vilão não fosse outra face do próprio Humbert, homem dividido, ou duplicado, como sugere seu próprio nome. É Quilty sua sombra estranha, ator não revelado, aquele que nunca conseguiu ser: o homem que roubou o coração de Lolita.

Enquanto a mãe quer se livrar da filha para concretizar a vida a dois com o professor, o mesmo a quer para amar. Sim, para amar. Eis uma estranha história de amor e loucura sobre alguém que se deixa afundar lentamente sob os sinais do problema, com suas fraquezas expostas. Em seu diário, dá a perfeita descrição para seu objeto de desejo: mistura de “infantilidade terna e sonhadora com uma vulgaridade velada”.

Ao contrário dos adultos e da sociedade ao redor, a Lolita de Sue Lyon acertadamente assegura essa “vulgaridade velada”. Kubrick fixa nela as bases de sua comédia: todos – o pai-amante, a mãe, o amante oculto – deixam ver quem são, pessoas vulgares não porque mostram tanto, mas porque tentam representar um certo papel.

Na comédia de Kubrick, Lolita é a única personagem verdadeiramente autêntica, de sorriso real, menina que se diverte ao enxergar a derrocada dos adultos que – como ocorrerá a ela mais tarde – não deram certo. O destino de Lolita é, de certa forma, essa mesma vulgaridade: a vida medíocre ao lado de um homem qualquer, em um subúrbio qualquer.

Enganado o filme todo, sobretudo por si próprio, Humbert não resiste à leveza da ninfeta que, longe do falatório insuportável da mãe, apenas desce os óculos escuros para observá-lo. À frente, para provocar o futuro amante, sobe as escadas correndo para lhe dar um beijo de despedida. Faz troça ao descobrir seu poder, ao provocar muito com pouco.

Em preto e branco, a fotografia de Oswald Morris confere ao filme a aparência de algo inviolável. Ao mesmo tempo, uma ideia de proximidade, de que conhecemos aquelas casas e aquelas pessoas. Aquelas estradas, aqueles postos de gasolina e aquele casarão que serve de palco à morte do inimigo. Essa estética torna a obra de Kubrick ainda mais misteriosa: uma pintura de rara beleza cravada por balas, com um homem morto atrás.

(Idem, Stanley Kubrick, 1962)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Fim do mundo em preto e branco

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