Corpus Christi, de Jan Komasa

Às pessoas que assistem sua última missa, o rapaz oferece o próprio corpo, suas tatuagens, a carne humana. Olha para trás, para a imagem de Cristo, e depois se volta aos fiéis que aguardam uma palavra, talvez um afago, a despedida com consolo. O rapaz – padre por alguns dias, homem sempre – só tem seu corpo.

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Diz sem dizer, em Corpus Christi, de Jan Komasa, que Cristo está em todos, no corpo de todos. Cristo não está apenas em alguns ou nos domínios físicos da igreja. O protagonista ainda estava preso quando ouviu o padre dizer que era preciso olhar para fora, que Deus não se limitava àquelas paredes, enquanto cantavam e fingiam harmonia.

O protagonista emociona-se enquanto ouve o líder religioso. Perseguido por outro preso, ele consegue a condicional e é enviado para trabalhar em uma serraria em região afastada. Ainda acena ao padre a possibilidade de ingressar no seminário, mas é avisado que não seria aceito. Seu passado – a ficha suja, os crimes e pecados – continua a persegui-lo.

Na cidade do novo trabalho surge a oportunidade de assumir o papel que tanto deseja: com batina em mãos, finge ser um jovem padre de passagem, a quem o traço um tanto angelical não deixa mentir – não até certa altura. Komasa discute as prerrogativas de uma vocação, também o que torna alguém religioso no sentido pragmático.

Envolve sua obra nos limites de outra religiosidade, ou mesmo de outra Igreja – ainda que este Corpus Christi nem sempre pareça disposto a confrontar a instituição. Nessa nova camada, o padre é um homem cheio de defeitos que pode assumi-los, não simplesmente desaparecer por dias, semanas ou meses – como faz o velho padre da cidade.

No lugar do outro – representação de uma Igreja acomodada, da politicagem feita à boca pequena, suja, típica dos rincões que o catolicismo adora abarcar -, o novo e falso padre revela-se transformador: aos que esperam o verbo de consolo, palavras de Deus postas às claras no púlpito, ele fala o que não se espera, enche o lugar de alma.

O mesmo rapaz que, na abertura, vigia a entrada da serraria da prisão – olhos esbugalhados, como se estivesse sob o efeito de cocaína, o que é provável – enquanto outros internos, ao fundo, torturam um detento. Daniel (Bartosz Bielenia), herói improvável, caminha o tempo todo por essa linha confusa que não deixa a culpa escapar à face exausta.

Fala ao mundo dos homens com algum cansaço, justo ele que acaba de chegar à batina, e pelas vias erradas. Por isso mesmo ele, diz o diretor, a partir do roteiro de Mateusz Pacewicz: apenas um outsider pode retirar as pessoas do comodismo, da corrupção diária, apenas quem viveu os problemas do mundo e por ele caminhou.

Sua nova cidade vive uma tragédia: um acidente envolvendo dois veículos deixou alguns jovens mortos, além do motorista que estava sozinho em um dos carros. Os parentes das vítimas apressam-se para culpar o homem; na entrada da cidade, a foto dos mortos, menos do acusado, que sequer teve direito a enterro – com a anuência da Igreja e do prefeito.

Daniel quer investigar o que há por trás desse crime. Para tanto, através de imagens frias e poucas luzes desse belo filme, pelo aspecto ora arenoso aparentemente indiferente às personagens em cena, Komasa e Pacewicz mostram que a verdade pode não agradar a ninguém, e que “narrativas cômodas” nada mais são do que mentiras.

O aspecto visual, em toda sua crueza, leva-nos à ideia de que, apesar de ocultar seus crimes, ou negar o dos outros, a Igreja nunca está imune à verdade. Ser enganado não é difícil, ainda mais quando do outro lado – na batina – existe alguém disposto a dizer o que acredita. Por isso mesmo, vale questionar se Daniel é um charlatão ou um iluminado.

(Boze Cialo, Jan Komasa, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Alan Parker (1944–2020)

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