Nuvens Dispersas, de Mikio Naruse

Alguns elementos não passam despercebidos e anunciam o futuro dos amantes: o inseto morto no prato (momento em que o homem é avisado de sua transferência a uma região insalubre do planeta), o trem e seu barulho (a “fissura” do casal) e a chegada da ambulância ao hotel onde estão as personagens (a morte reservada ao mesmo homem).

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São sinais que muito revelam e, ao mesmo tempo, reservam ao espectador o benefício da imaginação em Nuvens Dispersas. Cinema em sua função primeira: estimular o espectador pelo que mostra, pelos signos dispostos, pela construção dos sentimentos de pessoas que compreendem o que o destino – não o acaso – reserva-lhes. O material do melodrama.

Em seu último filme, Mikio Naruse não abusa das regras desse subgênero, menos ainda as evita. Seu filme é controlado, suas personagens sofrem sem passar do ponto. A primeira delas, a mulher, descobre o marido morto ainda no início. Foi atropelado por outro homem. Ela, Yumiko (Yôko Tsukasa), tem de viver com a dor e, pior, encarar o suposto criminoso.

Ocorre que o outro é alguém. Tem compaixão. Entende a dor da perda, resolve se aproximar da mulher. Dois seres sozinhos no mundo, ligados por um mesmo problema – não exatamente à morte de alguém. O que há de interessante não é o que pode separá-los, mas o que os une de qualquer forma, contra suas forças: o desejo que não podem ocultar.

Ele, Shiro (Yûzô Kayama), outra vez cabe à perfeição na figura que reconhece o próprio fim – ou, nesse caso, no melodrama sobre acidentes e doenças. Como no anterior Tormento, Kayama nasce para perseguir o que não pode ter, a mulher do outro que ainda assim o ama, a mulher distante que, diferente dele, tenta negar sentimentos.

E diferente de tantos filmes de Naruse, nos quais a mulher era o centro da dor e do universo em questão, aqui os sexos têm equivalência. O espectador acompanha tanto ele quanto ela. A dor do homem explica o vacilo da mulher, ou sua simples negação, seu papel de viúva culpada, impedida de amar, veja só, o homem que teria matado seu marido.

Sabemos como essas peças estão dispostas e como o jogo termina: em Douglas Sirk e seu Sublime Obsessão, o acidente dá vez ao encontro inesperado, que dá vez à doença ou à despedida. Como em Nuvens Dispersas, o que separa também une e a vilania é borrada, diluída nos efeitos das “coisas como são”, de novo no incontornável.

Há sequências espetaculares. Naruse tem consciência do preço do exagero, igualmente do drama suficiente contido no menor gesto dessa história. Em dado momento, Yumiko e Shiro dividem o mesmo guarda-chuva. Ele está doente, tem febre; ela segura o objeto e o põe sobre o companheiro. O ônibus que poderia levá-la surge no alto da rua e em seguida segue viagem; ela decide ficar com o homem que ama, estranho sincero.

Em outro momento, ele procura por ela na floresta. O tempo é outro, a chuva – elemento de perturbação ou mudança comum a Naruse – passou. As cores não são exageradas. O diretor prefere algo pálido, pastel, a combinar com a dificuldade de pessoas de futuros traçados. Shiro e Yumiko lutam para dar um passo e iniciar essa pequena história de amor.

Em filmes anteriores, Naruse evitava o melodrama. Vida de Casado e Irmão, Irmã, por exemplo, apostam no imprevisível, no cotidiano de tropeços, real, de pessoas que começam e terminam em pontos não tão distantes. Não que a jornada seja injustificável; o diretor retrata a vida de um Japão desapaixonado que em Quando a Mulher Sobe a Escada encontra o máximo do choque de cinismo.

Com Tormento e, sobretudo, Nuvens Dispersas, o caminho é outro: nada é por acaso. Há um sentido, uma mensagem que deve ser lida pelos amantes crucificados. Eles não amam para fugir. Amam para ter algo, reconstruir o que permitiram escapar.

(Midaregumo, Mikio Naruse, 1967)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Tormento, de Mikio Naruse

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