Relâmpago, de Mikio Naruse

A mãe e os irmãos querem ver Kiyoko (Hideko Takamine) casada. A moça reluta, não encontra alguém capaz de lhe roubar a atenção e os sentimentos. Seu trabalho projeta-a à grande cidade, Tóquio: ela é guia turística a bordo de um ônibus, através de ruas, pontes, à distância que quase sempre não lhe permite ver os pequenos problemas.

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Por outro lado, sua visão é enganosa. Ela está perto demais de tudo – ainda que ao canto. Não pode evitar o que a cerca, à medida que assiste ao drama, ou ao anti-drama.  A certa altura o conduz. Ao diretor Mikio Naruse, em Relâmpago, interessa a proximidade. Seu cinema é o da incursão ao íntimo, ao mesmo tempo o da vida cotidiana.

Essa vida em questão – de um, de vários – pode parecer chata. Está cheia de diálogos passageiros, de pequenas ações, desse Japão pudico no qual os problemas custam a ganhar relevo, no qual as pessoas internalizam dores.

Em algum momento, a vida de Kiyoko obriga-lhe a tomar partido dos problemas da família ao mesmo tempo em que tenta se desviar do mesmo enredo. Ela nega-se a flertar com o dono de uma padaria, homem mais velho, o “bom partido” que os outros desejam-lhe.

A moça, perto do fim, dirá à mãe que talvez fosse melhor não ter nascido. Brada, em tom baixo, contra a vida repetitiva, aquele meio de insucessos e conflitos retardantes. A cada briga na família, ou a cada lance dessa novela que se desenha ao olhos, a da vida ordinária, seu gosto pela inexistência – ou necessidade de fuga – é maior.

Naruse, da matéria da desilusão, pelo olhar dessa moça que vive em seu trabalho, todos os dias, a parte bela de uma sociedade, oferece a beleza das relações e repetições, nesse cinema que, não por acaso, e a despeito de algumas escolhas visuais, aproxima-o de Yasujiro Ozu. Sua heroína cansou-se dessa história, na qual ocupa o centro e não sabe.

Os espaços são compostos com calma. A mise-en-scène evidencia as intenções de Naruse: contra o aspecto de que nada ocorre, a formulação do campo e das peças em disposição deixa ver o quanto o caos pode ser consertado, o quanto a harmonia das sequências rearranja o universo em questão e oferece, nesse caso, algo belo.

A resposta de Naruse é cinematográfica. Não custa lembrar a máxima de que todo filme, no fundo, é sobre cinema. E que a vida sem emoção de Kiyoko tem o que a protagonista não consegue alcançar, parte do todo como é. Relâmpago é sobre calmaria, fluir de vidas, possibilidade de encaixes. Em suma, sobre a passagem do tempo.

Nessa jornada de dias, semanas, meses, não se sabe, Kiyoko assiste aos problemas de suas irmãs. Uma delas perde o marido e descobre que o mesmo mantinha um caso fora do casamento, além de um filho pequeno. Na companhia da protagonista, Mitsuko (Mitsuko Miura) vai à casa da outra e observa como a criança é parecida com o falecido.

Kiyoko não compreende por que a irmã ainda aceita dar dinheiro à outra mulher, a pagar pelos erros do marido morto. Ou por que todos aceitam viver esse drama familiar que aponta tanto à mesquinharia quanto à subserviência cega. A heroína não é necessariamente quem age, mas quem vê, quem percebe e se desloca para fora.

Natural, por isso, que Kiyoko mude de casa. Passa a morar em um quarto alugado, na casa de uma mulher que perdeu o marido. Na vizinhança, conhece um simpático casal de irmãos. Com o rapaz – belo, jovem e de aparência pura – nasce o flerte. Possível laço que Naruse prefere não mostrar. As possibilidades estão dadas.

Em seu trabalho, Kiyoko vende as belezas da metrópole. Ainda que à parte dos problemas cotidianos, não terá sossego nem ali, em movimento, microfone à mão. Seus familiares insistem em cruzar o caminho de seu ônibus nesse grande filme de tempestades ausentes, de relâmpagos distantes. A chuva é rápida, passageira.

(Inazuma, Mikio Naruse, 1952)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Em dois tempos, dois dramas femininos de Mikio Naruse

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