Wasp Network: Rede de Espiões, de Olivier Assayas

Os cubanos que escapam da ilha de Fidel Castro usam um argumento conhecido – usado antes por Tony Montana em Scarface – para manterem os pés nos Estados Unidos: voltam aos interlocutores e questionam se eles sabem o que é viver à sombra do comunismo. Aos olhos dos americanos, em Wasp Network: Rede de Espiões, é como falar do inferno.

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As personagens de Olivier Assayas, do livro de Fernando Morais, tem mais a esconder: algumas usam o argumento, ou alguma variação deste, para ludibriar, puxar para si a política e, assim, justificar a necessidade de fuga. Montana era real em sua falsidade; os espiões de Assayas evocam o falso enquanto ensaiam a realidade.

A serviço de Fidel Castro, eles não se deixam enxergar. Fingem ser fugitivos, figuras cansadas da vida sofrida de pouca comida e energia elétrica. O primeiro é o piloto de avião Rene (Edgar Ramírez), que deixa para trás, além da ilha, mulher (Penélope Cruz) e filha pequena. Em um dia como qualquer outro, levanta voo e vai para Miami.

Há, para outra personagem de peso, um caminho mais curto: a prisão de Guantánamo. Juan Pablo (Wagner Moura) nada até o complexo, à noite, enquanto finge ser um contra-revolucionário. É recebido com algumas perguntas, não sem um Big Mac e uma Coca-Cola – entre os militares, os símbolos do capitalismo.

O ator brasileiro faz um homem rude, chique, conquistador mas retraído. Alguém que, ao contrário de Rene, não esconde a vida dupla. Sequer deixa ver do que realmente gosta: em Miami, goza da vida de ternos caros, rolex no pulso, para a certa altura voltar para Cuba sem aviso prévio. Deixa para trás uma bela mulher (Ana de Armas).

A primeira parte do filme é sobre a adaptação desses homens nos Estados Unidos, sobre como se embrenharam na organização anticastrista e, no caso de Rene, a constatação de como os inimigos mantêm sua força pelo tráfico de drogas. Qualquer ação vale para combater o país que, por décadas, entre invasões, atentados e embargo, conseguiu resistir.

A segunda parte assume os espiões como são. A obra imprime bom ritmo, nada de paixão. É possível perceber um diretor interessado em cada segundo do filme, ainda que não saiba bem o que fazer com seus belos latinos com pouco tempo em tela. Prioriza o movimento, os atentados, as corridas, à medida que os humanos vêm a reboque.

Remete, em momentos, à experiência de Carlos, história do terrorista interpretado pelo mesmo Edgar Ramírez. Neste caso, o longo tempo permite-nos entender melhor a personagem – tão dura, tão amarga – e o contexto histórico. Empreitada ambiciosa que, ao contrário de Wasp Network, dá conta dos humanos e, vá lá, de suas paixões.

Em filmes passados, Assayas mostrou o quanto podia ser intimista. Em diálogos, em encontros fortuitos, preso ao natural, convincente. Nessa história política sobre espiões cubanos, tudo é tão calculado – sem tempos mortos ou livres – que chega a ser irritante. As personagens quase não podem respirar, não vivem sem fazer algo.

Vemos, na sequência dos atentados aos hotéis de Havana, patrocinados pelos contra-revolucionários, a aproximação imediata à Batalha de Argel de Pontecorvo: as bombas colocadas sobre móveis, em locais movimentados, no dia comum convertido em data trágica. A ponta da lança desses embates é sempre a gente comum.

E se Pontecorvo colhe sua energia da realidade palpável, de seres com tamanha indiferença à dor e levados irracionalmente à luta por suas liberdades, próximo ao documentário, de Assayas não se vê nem o poder do realismo e, de volta a Carlos, nem a boa ficção.

O cineasta tenta dar voz a todos os lados desse conflito de ideologias e sistemas. Importante ressaltar: antes será dado o grupo, ou a “rede”, como sugere o título. Humanos depois. À tela, sua proximidade, jogos, conexões, vidas condenadas por esse mundo que insiste em reviver velhos vícios. Nem parece que a Guerra Fria havia terminado.

(Wasp Network, Olivier Assayas, 2019)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Vidas Duplas, de Olivier Assayas

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