Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman

Primeiro a infância, depois o teatro. Através do palco em miniatura, a criança observa suas peças, pequenos bonecos. Sonha de olhos abertos, fixos, voltados ao universo mágico em que se comanda a história e, em Fanny e Alexander, que em certo sentido ilude: a criança ou os atores estão impossibilitados de controlar as “forças” do confinamento.

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A infância e o teatro, de maneiras distintas, talvez opostas, remetem ao espaço fechado. O primeiro confinamento deveria proteger do mundo como é lá fora; o segundo pode refletir o mundo como é lá fora, ainda que, para muitos, represente escape. O primeiro carrega fantasmas, visões; o segundo pode projetá-los com alegria, leveza.

O menino é visto através do teatro – do pequeno palco fora de foco, a exemplo das velas em primeiro plano – para depois se inclinar. “Depois que Alexander adormece no início do filme, não é possível que ele esteja sonhando esta história em sua totalidade?”, questiona Rick Moody, em texto para o encarte da edição em DVD da Criterion.

O menino, interpretado por Bertil Guve, tem todo aquele reino à disposição, a desfrutar de sua extensão vermelha e branca, a bela casa moldada a cortinas e tapetes opulentos e estátuas que ganham vida aos seus olhos. Universo que se mexe, que se expande em estranheza própria, síntese da relação da criança com a imaginação.

Apenas esse prólogo (estendido para a versão em minissérie feita para a televisão) guarda um filme à parte, um curta-metragem silencioso sobre a infância e suas descobertas. Em cena, o menino faz-se rei em um trono, liberta um rato preso na arapuca, assusta-se com a já citada estátua e vê a arma que a Morte carrega; em seguida, a mesma surge para ele.

Os monstros de sua imaginação perseguem-no. Para Ingmar Bergman, não há o que fazer, não há fuga possível. Vêm o Natal, a celebração da união, a festa religiosa, a família enorme à mesa para confraternizar, rir, comer bem, entre patrões e criados; depois, para a tristeza de Alexander e sua irmã, Fanny (Pernilla Allwin), a morte do pai.

Encará-la – os últimos suspiros, o espectro que passa a enxergar – é seu grande desafio. É ver o mal, o momento em que tudo desaba. Quando é levado a se despedir do pai, Alexander fica ainda menor, joga-se no chão, recua ao canto da sala como a criança retraída que nunca deixou de ser, face da ingenuidade que não aceita o curso da vida.

Ainda pode piorar, descobrem o menino e a irmã. A mãe casa-se com um pastor rígido. Todos mudam-se a uma casa opaca, um tanto hermética, de paredes grossas e envelhecidas. O mundo de alegrias, da comédia, dos tios agitados, do teatro, dá lugar à angústia, à religião personificada no padrasto que, com pouco, alguns toques, revela violência.

Bergman reconhece a impossibilidade de preservação do menino Alexander. Os momentos felizes não apontam à infância idealizada. Bergman sabe das contradições religiosas, ele próprio um filho de pastor luterano. A infância projetada nos primeiros minutos é a do esconderijo, do fechamento, do susto, permeada por alguma diversão.

Segundo Pauline Kael, Bergman “presenteia-nos com seu mundo de sonho gótico-freudiano embrulhado com laço de fita”. Ainda que contendo medo constante, potencializado pelo olhar de Alexander, a obra pode ser colocada ao lado dos filmes felizes do diretor, de comédias como Sorrisos de uma Noite de Amor e O Olho do Diabo.

Os adultos, mesmo ao lado de crianças tão expressivas, nunca são desinteressantes. Podem ser idiotas, chorões, autoritários – cada um em seu papel, em seu ponto para entrar em cena. Um jogo calculado de felicidades mescladas ao terror, jogo de olhares que, partindo de Alexander, permite a incursão no reino do impossível, a visão do pai, Oscar (Allan Edwall), mal-encarado, à la Hitler, que anuncia os dias que se seguem.

Os adultos não são fáceis de entender. A mãe (Ewa Fröling), antes na trupe teatral com o marido, deixa-se levar, em sua solidão, pela autoridade do pastor. A vida feita à arte depara-se com a renúncia que a alienação exige. A nova vida de Alexander leva-o a outro confinamento. A criança em cena – como, no passado, a criança Ingmar Bergman – fica entre a arte feita de “pecados” e a religião, nesse caso, sustentada pelo autoritarismo.

(Fanny och Alexander, Ingmar Bergman, 1982)

Nota: ★★★★★

Veja também:
O fazer cinematográfico, segundo Ingmar Bergman

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