Ingênua Até Certo Ponto, de Otto Preminger

Os diálogos deixam pontas soltas, tudo proposital. “Seus pés são muito bonitos”, diz ele, o arquiteto, a ela, a atriz que acaba de conhecer. Eles esbarram-se e passam a flertar em frente às vitrines do Empire State. Não há excitação, apenas curiosidade, como se o diretor, Otto Preminger, estivesse impedido de abordar o desejo sexual.

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Será assim o filme todo: a moça é ingênua, personagem curiosa a essa crítica à América careta do início dos anos 1950, à luz da censura. Ainda que fosse comum a ida de moças aos apartamentos de homens que acabam de conhecer, tal investida, em Ingênua Até Certo Ponto, cheirava à ousadia. Era preciso converter o romance em comédia.

A ingenuidade é o escudo, a provocação, pela boca da menina que diz o que vem à mente – para o rubor dos homens com os quais tromba ao longa de curta jornada. O filme de Preminger não diz nada sobre o casal, que nasce de repente, como se existisse há muito tempo, explicado pelo local e situação. Homem e mulher. A descoberta.

Basta a primeira troca de olhar entre Donald Gresham (William Holden) e Patty O’Neill (Maggie McNamara) para não se despregarem até o fim. O primeiro beijo vem no mesmo prédio, no topo, e o convite para conhecer o escritório dele – atrás de uma agulha para costurar seu terno – é desculpa. O tempo que gastam combina com a comédia; a ideia é protelar o inevitável, a ida ao apartamento do homem.

Demorariam alguns anos para que a mulher dividisse sua intimidade no interior de um banheiro, como em Psicose, ou para que um apartamento servisse a encontros casuais, como em Se Meu Apartamentos Falasse. E ainda que de 1953 a 1960 o salto pareça pequeno demais, a abordagem do sexo corria a passos lentos na Hollywood de então.

Preminger, trabalhando com elenco mínimo e poucos cenários, da peça que já havia montado nos palcos e cujos direitos pertenciam-lhe, permitiu-se ousar. Pela primeira vez, o espectador americano assistia a diálogos com expressões como “virgem” e “grávida”. Ao público atual a ousadia pode parecer pequena, à época não passou incólume.

“Como você sabe, distribuímos o filme sem o selo de aprovação da Legion of Decency. Em alguns lugares isso ajudou a película, mas em certas cidades pequenas a polícia se postou em frente aos cinemas para anotar os nomes das pessoas que entravam”, contou o cineasta, em entrevista a Peter Bogdanovich, no fim dos anos 1960.

Na impossibilidade de tecer elogios a outras partes do corpo da moça, o arquiteto – o homem do design, que admirou por horas o primeiro prédio que projetou, como conta à nova pretendente – observa seus pés, o que deixa perceber algum fetiche. Em seu apartamento, a menina fica à vontade, cozinha, faz brincadeiras.

Suas falas não raro emudecem os outros. A ingenuidade destilada confronta os machos babões que caem por ela, que às vezes ganham um beijo – e que mais parecem beijos de filhas para pais, ou beijos de compaixão, para que parem de perturbar. Ou beijos como brincadeiras de criança, nas quais a graça eclipsa o tesão.

Não bastasse o casal central, surgem outras peças, como a ex-namorada de Donald, interpretada pela bela Dawn Addams, além do pai da moça, vivido por ninguém menos que David Niven. Mais tarde, o ator viveria o pai por quem a filha tem sentimentos fortes no ótimo Bom Dia, Tristeza, também dirigido por Preminger.

Com Ingênua Até Certo Ponto, o cineasta retorna à comédia screwball (a expressão é usada por Donald para definir Patty em alguns momentos), com suas corridas às portas de apartamento e elevador, trocas de quarto e amante, inegável erotismo que, em vão, tentava-se velar. À moça ingênua os experientes veem-se inclinados, justo a ela, com rosto feito à televisão, contornos infantis, palavras sapecas.

(The Moon Is Blue, Otto Preminger, 1953)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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2 comentários sobre “Ingênua Até Certo Ponto, de Otto Preminger

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