Febre da Selva, de Spike Lee

Na teia social de Febre da Selva, negros casam com negros, brancos com brancos. Seguem o curso “natural” até o aparecimento da indicada “febre”, que, descontrolada, pode atender aos instintos impensáveis, primitivos, ou reais, nesse curioso filme de Spike Lee.

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Termina por atingir o arquiteto Flipper (Wesley Snipes), bem sucedido, bem casado, com uma bela filha que, ao contrário do que indica a abertura, naquele que mais parece um dia normal como outro qualquer, não deixa ver a experiência do mundo branco antes projetado pelo cinema, no qual os filhos dormem o sono dos anjos enquanto os pais fazem amor.

A menina, ao contrário, escuta o som do sexo, da realidade, chega a dar risada – sorriso típico a personagem de seriado americano indolor, outra das várias ironias que Lee traz para essa história cheia de pontas e alvos, frequentemente dispersa, estranha. Ainda assim, uma abordagem corajosa, para além do carimbo esperado: o “Romeu e Julieta racial”.

Lee pode ser cômico sem evitar a tragédia que corre por seus espaços, e mesmo que a relação entre o negro e a ítalo-americana desenvolva algo brutal a todos, famílias e amigos, trará sequências engraçadas, como o momento em que Flipper é surpreendido pela esposa em fúria, que lança suas roupas pela janela do apartamento.

Em Febre da Selva, a doença é social, corrosiva, entre o colorido falso comum ao diretor e os estereótipos que recaem sobretudo aos ítalo-americanos. Como saídos de um filme de Scorsese, gritam à mesa, rebaixam mulheres, atacam negros, comportam-se como mafiosos que se unem diariamente em bares ou cafés, como se trabalho não houvesse.

Os lados – à exceção do caso de amor – nunca se tocam por completo. A melhor mescla pode ser vista no cartaz da obra, nos dedos dos amantes encaixados, e nada mais. Nem amor profundo eles sentem. Flipper, por exemplo, não entende o que em Angie (Annabella Sciorra) tanto o atrai, logo ele que não queria uma secretária branca.

O filme sai frequentemente dessa relação para vagar entre coadjuvantes: ao ex-namorado (John Turturro) dono de uma cafeteria, que sente atração por uma cliente negra (Tyra Ferrell); aos pais religiosos (Ossie Davis e Ruby Dee) e ao irmão (Samuel L. Jackson) viciado em crack; ao escritório cujo sucesso teve em Flipper figura fundamental, mas não o suficiente para que se tornasse um de seus proprietários.

O problema foi abordado antes em Faça a Coisa Certa: sem a propriedade, segundo Lee, o negro continua sob as forças do outro. Buggin Out não pode trocar as fotografias da “calçada da fama” da pizzaria do Sal. Flipper, mesmo após tanto trabalho duro, não será convidado a fazer parte do corpo de sócios do escritório de arquitetura no qual trabalha.

Segundo o diretor, o negro é sempre colocado em seu lugar: no grande prédio aberto aos viciados em crack, a trombar com alguma prostituta disposta a se vender por muito pouco, ou sob a mira do revólver do policial branco, quando, abatido por ares de pesadelo, é acusado erroneamente de estar estuprando a companheira ítalo-americana.

Há nós que não podem ser desatados. Se Faça a Coisa Certa oferece um clímax – ou a saída irônica para dizer que, no fundo, tudo seguirá como sempre foi apesar de uma noite incendiária -, Febre da Selva retorna ao conformismo das posições, o regresso dos amantes ao espaço ao qual sempre pertenceram. Ainda não há solução para o problema.

O grito de Flipper, na última cena, é o grito do pai em seus próprios domínios, de volta à vida e aos problemas de seu bairro, que desfilam aos olhos diariamente, esquina a esquina. O ódio e o medo foram incorporados. A violência repousa – sem qualquer surpresa – sobre a religião, a arma, depois de usada, é posta sobre a Bíblia.

(Jungle Fever, Spike Lee, 1991)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Spike Lee: “Nenhum negro jamais me perguntou:
‘O Mookie fez a coisa certa?’. Nunca”

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