Um Elefante Sentado Quieto, de Bo Hu

Quatro pessoas deverão fazer a mesma viagem, ou no mínimo almejá-la. Viagem ao encontro do tal elefante sentado, talvez uma criatura assustadora, incontornável, o extraordinário com o qual sonham esses mesmos viajantes. Como diz uma das personagens, os mais jovens podem fazer o que quiser, o que não garante que algo acontecerá.

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O filme de Bo Hu é sobre esse estranhamento, sensação de não deixar o mesmo lugar: a jornada a ponto algum e que aparentemente não transforma, que oferece, mais e mais, o interior, o mesmo visual triste, a mesma cidade acinzentada. Um Elefante Sentado Quieto é sobre pessoas sem perspectiva: dois estudantes, um criminoso e um velho homem.

Diferentes gerações esbarram-se, vivem próximas, saem para a escola, para passear com animais de estimação, matar o tempo, fazer o mesmo e tudo como nunca foi feito. Um dia que poderia ser como qualquer outro, de minutos estendidos, do tempo sufocado pela aparência do nada, enquanto a câmera aproxima-se, circula, persegue.

O garoto, como os demais, tem um dia difícil. Em casa, Wei Bu (Yuchang Peng) briga com o pai. Na escola, por causa do furto de uma carteira envolvendo um amigo, entra em confronto com o líder de uma gangue, que termina hospitalizado após um acidente. Em paralelo, o irmão da vítima, Yu Cheng (Yu Zhang), passa a procurar pelo culpado. 

O mesmo dia também não será fácil para esse perseguidor: pela manhã, ele assiste ao suicídio de um homem, companheiro da mulher com quem passou a noite. Ao encontrar Cheng no apartamento dela, o traído joga-se da janela, gesto que aponta ao tema central.

Do desespero de alguém de passagem dá espaço ao desespero das personagens mais importantes, às escolhas que esbarram na intenção de não viver mais – para não ter de se locomover à violência, aos problemas, às cobranças que não cabem mais na vida desses seres diversos, comuns, em busca do lugar sonhado, a terra do elefante sentado.

Com uma arma, o amigo de Wei Bu fala em suicídio. Leva o objeto à cabeça. Não muito longe, em seu apartamento, Wang Jin (Congxi Li) é avisado pelo filho que terá de deixar o imóvel. Sua neta está crescendo, não haverá lugar ali para quatro pessoas. Seu destino é a casa de repouso, para viver como outros de sua idade, à espera da morte.

Naquele mesmo dia, Wang Jin vê seu cão ser morto por outro cão, recebe o taco de sinuca de Wei Bu e, pouco a pouco, liga-se a esse jovem que, a exemplo dele, a exemplo de outros, não tem rumo, não tem lugar, não tem casa, ou filho, ou pai, ou qualquer pessoa para chamar de família. Ambos, cada um à sua maneira, estão condenados à morte.

Há ainda a menina, Huang Ling (Uvin Wang), em conflito constante com a mãe. Ao lado da porta de saída de seu prédio, encostado na parede, está um taco de beisebol. O objeto pode ser usado contra qualquer um que tente atacá-la – como o cão que mata o animal de Wang Jin.

Os sentimentos ainda são possíveis em clima mórbido, meio gélido no qual os dramas paralelos correm para pouco a pouco se encontrar. Wei Bu sente algo por Huang Ling. Juntos, passeiam por uma praça de estruturas metálicas envelhecidas, enferrujadas, à frente de paredes em decomposição, por pontes com lixo acumulado abaixo. 

Do vice-reitor da escola, justamente o amante da garota que deseja, Wei Bu ouve o que parece certo: ele é alguém sem futuro, destinado a servir os outros. Mais que incerto, o encontro com o elefante sentado – para ele, para qualquer companheiro de viagem – é impossível. Seu som, no último instante, leva a pensar em um monstro oculto, perto de devorar os fugitivos dessa sociedade labiríntica, sob mal-estar excessivo.

O diretor Bo Hu, como algumas de suas personagens, optou pela morte. Suicidou-se em outubro de 2017. Seu trabalho, com dor e angústia expressas, carrega seu interior. Impossível não pensar nessa obra complexa como seu testamento.

(Da xiang xi di er zuo, Bo Hu, 2018)

Nota: ★★★★☆

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