Josey Wales, o Fora da Lei, de Clint Eastwood

O herói é possível a despeito das cusparadas, do desdém. Cospe em cadáveres, no cão que o segue, no solo seco que limita a distância entre ele e os homens que certamente irá matar. O herói, ainda que alguns discordem, é mítico: fixa-se a ambientes áridos, como rocha, dono de todas as certezas, como era – o mesmo Clint Eastwood – nos filmes de Sergio Leone.

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A personagem-título, em Josey Wales, o Fora da Lei, move-se à contramão do mundo, que não a aceita. Não pode se integrar. Tem passado trágico: perdeu a mulher e o filho, assassinados por pistoleiros. Sobre a cova dos parentes, é convidado a seguir pelo mundo com soldados e a lutar na Guerra Civil, da qual sai renegado, fora-da-lei.

Nessa nação que se reconstrói, unifica-se, o herói – próximo ao anti-herói – termina na companhia de índios, do cão largado, a refletir esse mesmo animal sem rumo, ainda capaz de arrancar suspiros da moça loura e virgem que cruza o caminho. Com todos, Wales compartilha sua principal ideia: é necessário cultivar a maldade.

Ao contrário dos colegas soldados da Guerra Civil, Wales não aceitou se entregar ao lado vitorioso. Como se pressentisse o pior. Perseguido, com a cabeça a prêmio, estará perto de problemas o tempo todo, perto demais dos homens que o perseguem. Astuto, faz a corrida parecer fácil; não resta dúvida de que é capaz de enfrentar um batalhão.

O filme de Eastwood contém o brilho opaco e a forma amarelada da Nova Hollywood. A visão da mulher e do filho à beira do lago, no início, e depois a chegada da matança propõem a migração rápida do sonho ao pesadelo, ao passo que Eastwood, o ator, pode ser o amável homem do arado e, de súbito, com arma retirada das cinzas, converter-se em vingador.

Nem de Leone ou de Sam Peckinpah vem essa noção de velocidade, essa economia vertida em forma febril, aparência errática; vem, ao que parece, de Don Siegel. No palco da produção de estúdio e do cinema de gênero. No entanto, Eastwood, o galã, encontra a brecha possível para a construção da história desagradável, filme de estrada sem estrada, sobre a formação de uma nova família que, invertida, só pode existir sob o efeito da violência.

Não apenas a virgindade da moça loura (Sondra Locke) retira o herói: para ela, ele dá a senha de como viver nesse oeste de ataques à pouca luz, pela manhã, de rifles posicionados em janelas em forma de cruz, de carniceiros que se colocam à frente para serem abatidos como animais, de soldados convertidos em caçadores de recompensa.

A moça é a mulher por quem o cavaleiro solitário poderia se converter, de novo, em homem de família, a plantar raízes. É o que faz Bill Munny, o protagonista de Os Imperdoáveis, espécie de Josey Wales ao contrário: enquanto no filme de 1976 o homem comum migra à estatura de lenda, no de 1992 a lenda cede lugar à face humana.

O Eastwood de antes reforça o mito à medida que atira, que desfila com o cavalo, que afirma quem é, enquanto pode usufruir de pequenas saídas cômicas sem nunca ser cômico. Serve-se do silêncio, como se servia o mestre Leone. Em Os Imperdoáveis, a disposição é outra: os mitos são produtos das histórias contadas, do boca a boca; mesmo o tiroteio final, no bar lotado de pistoleiros, servirá para afirmar o homem de carne e osso.

O que também não significa que Josey Wales representa um Eastwood menor ou a caminho de certa maturidade. Sua obra é híbrida: há tanto da sujeira de sua época – no quesito visual, na composição de algumas personagens – quanto dos aspectos da jornada fordiana, com ilustres coadjuvantes e suas maneiras de ajudar a posicionar o herói.

Entre eles, o amigo jovem assassinado (um tanto puro), a moça que faz o amor renascer (a mulher revelada), o antigo parceiro da guerra que fala de seu poder com a arma, além do índio de cabelos brancos, sábio, que chancela sua grandeza. Enquanto todos falam, Eastwood reserva a si o mistério, a presença do homem calejado, cheio de traumas.

(The Outlaw Josey Wales, Clint Eastwood, 1976)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O encontro de Clint Eastwood com Don Siegel

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