Gêmeos – Mórbida Semelhança, de David Cronenberg

Os gêmeos não trocam de papéis. Beverly e Elliot vivem uma só vida, em equilíbrio até a chegada da mulher. Ela, a atriz, pode ser todos, qualquer um, e talvez não precise se definir. O que ela não pode é ter um filho, reproduzir; para Beverly, que se apaixona por ela, a nova companheira espelha a infertilidade, o irmão a existência.

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Beverly depende de Elliot, Elliot de Beverly. A mulher que desestrutura a relação de ambos conhece o primeiro dos irmãos, o mais inteligente, retraído, e logo em seguida é levada a experimentar o outro, que, sem surpresas, passa-se pelo primeiro. Para viver momentos de intensidade, de entrega, Beverly depende de Elliot, o sedutor.

O contrário também se aplica em Gêmeos – Mórbida Semelhança: para ter pesquisas publicadas e sucesso no trabalho, Elliot precisa da inteligência de Beverly. Ambos vivem essa transmissão de funções, passagem constante – um para ser dois, dois para ser um, em jogo interminável do homem e seu duplo – no grande filme de David Cronenberg.

Os irmãos gêmeos são ginecologistas. Fascinados pelo corpo feminino, pela reprodução, dividem o mesmo consultório, o mesmo apartamento, inclusive a mesma cama, sugerem alguns. Até a chegada de Claire (Geneviève Bujold), o equilíbrio estava mantido, e a transferência das formas – do retraído ao sedutor, ou o oposto – era possível.

Com Claire, o jogo é bagunçado: a mulher em questão não é apenas o sexo oposto que move o trabalho – e a vida – dos irmãos: é uma mulher mutante, dona de um útero de três entradas. “Anomalia”, ao que parece, aos olhos dos médicos; fonte de desejo para um, amor para outro, estranha completude que se converte em conflito.

É ela que sugere a homossexualidade de Beverly – antes de saber que ele tem um irmão gêmeo. Seria Beverly o lado feminino, ou passivo, na composição humana formada – ou completa – com Elliot? Cronenberg, em roteiro escrito em parceria com Norman Snider, a partir do livro de Bari Wood e Jack Geasland, abre-se à psicanálise: é a mulher mutante, “castrada” mas sexualmente ativa, que rompe o cordão que liga os gêmeos.

O jogo de espelhos é rompido – o cordão é devorado – pela atriz que representa em si mesma, em sua anatomia, três aberturas (o útero raro) e caminho algum (a impossibilidade de dar à luz um filho). Ao descobrir que um irmão passou-se pelo outro, ela sugere o que o espectador não demora a compreender: no fundo, eles são um só, e apenas assim podem resistir.

Atraído ao espaço de Claire e impossibilitado de deixar seu duplo – fusão que psicologicamente remete aos irmãos siameses -, Beverly consome medicamentos para conseguir dormir ou ficar de pé, depois adoece quando a amada muda de cidade por alguns meses para trabalhar em um filme. Elliot, antes inabalável, também tem problemas.

Os gêmeos – ou siameses – não conseguem se despregar. Assistir à morte do outro significa encontrar a tristeza, por sua vez a própria morte. Comum, nos filmes de Cronenberg, a união entre carne e máquina, entre corpo e tecnologia. Em Gêmeos, os mesmos instrumentos criados para a mulher com o útero de três entradas servirão justamente para “separar” os irmãos. E terminam expostos em uma galeria de arte.

O uso dos instrumentos na mulher – em qualquer mulher – é como um ritual satânico, a entrada ao filme de horror: o médico Beverly veste vermelho, mostra aos colegas de trabalho os novos instrumentos que criou e põe em ação a tentativa de explorar os detalhes do corpo feminino, ou de destruí-lo enquanto o penetra, enquanto enlouquece.

Cronenberg não tem medo de exagerar. Outra de suas marcas. Seu cinema opera na exposição da carne, do sangue, à medida que lança o espectador à psicologia, aos afetos, ao efeito inerente dos rompimentos, ao questionamento da normalidade. Cinema inquieto que, com Jeremy Irons em papel duplo, oferece uma amálgama das dores que extrapola um ou dois seres, três ou mais. Tecido esgarçado, prestes a estourar.

Por Beverly ou Elliot, o homem é fraco, não se realiza no que crê ser sua definição, em vida a dois, e explode com a chegada do elemento desestabilizador. Está impedido de viver com contradições e “pecados”: ao não assumirem com clareza o desejo incestuoso, os irmãos debruçam-se na anatomia feminina, na busca pelo caminho da formação, origem da vida e da singularidade de seres que precisam do sexo, da ligação entre corpos, que simplesmente não botam ovos na água para gerar descendentes.

(Dead Ringers, David Cronenberg, 1988)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Cronenberg: uma experiência carnal

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