Cronenberg: uma experiência carnal

Pergunta: Em eXistenZ os personagens têm de enfiar um plug na espinha para poder entrar no jogo. Ou seja, para que eles entrem no jogo, o jogo tem que entrar neles. Isso sugere que o único meio de conhecer realmente uma coisa é interagir com ela fisicamente. De certo modo, seus próprios filmes exigem que o espectador entre neles e os vivencie como uma experiência física.

 

Com certeza. Meu sentimento é o de que o primeiro fato da existência humana é o corpo. Tudo que fazemos e experimentamos é mediado pelo nosso corpo. Nós somos nosso corpo, embora às vezes esqueçamos disso.

 

Então, para conectar-se completamente a uma experiência, penso que sempre é preciso haver um elemento corporal, orgânico nesse contato. Mesmo quando achamos que estamos sendo muito cerebrais ou intelectuais, separados das coisas físicas e orgânicas, trata-se de uma ilusão. O cérebro também é um órgão, não é?

 

Para mim, a arte é sempre uma experiência carnal. Estou sempre tentando mostrar isso na tela, de uma maneira, digamos, metafórica. O que quero é nos fazer voltar ao corpo. Dizer: “Não nos esqueçamos do nosso corpo”.

 

Pergunta: Martin Scorsese disse certa vez que você não entende o sentido de seus próprios filmes. Suponho que você tenha tomado isso como um elogio.

 

Bem, certamente não tomei como um insulto. Acho que é legítimo ele dizer isso. Se aquilo que você cria como artista está vivo, terá então muitos sentidos. Terá diferentes sentidos para pessoas diferentes.

 

Quanto a Scorsese, não sei se ele é um católico praticante, mas sei que ele acredita no diabo, acredita no Mal, e provavelmente acredita também numa vida depois da morte. Devo dizer que não acredito nessas coisas, pelo menos não nesses termos. Ele interpreta meus filmes da sua perspectiva.

 

Acho que o que Scorsese disse sobre mim pode ser dito sobre muitos artistas, porque grande parte do que fazemos é intuitivo. Temos antenas, temos radares, captamos coisas estranhas e tentamos traduzi-las numa linguagem estética. Não tenho a última palavra sobre meus filmes.

David Cronenberg, cineasta, em entrevista a José Geraldo Couto na Folha de S. Paulo (caderno Mais!; 3 de outubro de 1999; leia aqui a entrevista completa). Acima, Cronenberg dirige Jeff Goldblum em A Mosca; abaixo, com James Woods nas filmagens de Videodrome: A Síndrome do Vídeo.

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