Calafrios, de David Cronenberg

A ilha de tranquilidade e boa vida nada tem de paradisíaca. É apenas um local isolado com um prédio grande e quadrado, extensão da cidade. Por isso, o que a publicidade promete é cumprido: não há distância alguma da vida real, do mundo urbano. Nem poderia: seus mortos-vivos – de beleza e corpos preservados – continuam sempre no mesmo lugar.

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Desde o início, a frieza toma conta de Calafrios. Ação direta, sem rodeios, de seu cineasta, David Cronenberg, à época um nome em ascensão. Filme de doença, depois de zumbis, corrida irracional, sem regras, aos prazeres e à morte. Corrida para sobreviver ao ataque do grupo cada vez maior, dos quartos à garagem, depois à piscina.

O protagonista demora a tomar forma. Se de um lado o filme parece econômico, ter pressa, de outro não há um herói ou alguém a se grudar. Cabe ao médico Roger (Paul Hampton) a função. Não satisfaz. Ele descobre que por trás da morte de outro médico e de uma adolescente pode estar uma experiência envolvendo parasitas e o desejo de devolver aos homens uma vida baseada nos instintos, sem interferência racional.

O próprio médico (a ciência), antes de ser atacado por zumbis, em algum momento demonstra as necessidades do sexo. Ele observa sua companheira (a carne, o físico) trocar de roupa enquanto fala ao telefone. Divide-se entre o homem com desejos e o homem com missão, com controle, ainda sem saber a gravidade do problema que o cerca.

Cronenberg é também autor do roteiro. Seu filme pode ser interpretado como a impossibilidade de se construir um espaço imune aos efeitos selvagens de uma doença, ou como a interrupção de um levante hedonista, como desejava o criador do parasita. O homem, como de costume, põe tudo a perder, sem que haja equilíbrio possível.

Em sua corrida para tentar salvar o que pode, Roger luta com um homem negro e o mata; saca uma arma e atira em outro homem pelas costas; termina no apartamento de um senhor que apresenta a filha adolescente, antes de beijá-la, para o susto do protagonista. A porta para a fuga possível leva-o a encontrar mais zumbis sedentos por sexo.

Termina na piscina, atacado pelo grupo, incluindo a bela Barbara Steele. Cronenberg não faz dos zumbis seres em decomposição; ao contrário, oferece-lhes beleza. Provoca o espectador: seria má ideia banhar-se com Barbara Steele? Entre o terror e o erótico está o momento em que ela é atacada, na banheira, pelo monstrinho de forma fálica.

Os momentos finais, com a saída dos carros para a cidade, com o mal que extrapola a ilha, não é exatamente amargo. É irônico. Naqueles sorrisos, na aparência de pessoas conscientes em seus veículos em fila, reside a vitória das pulsões primitivas. Agora estão soltas, a correr pela cidade, à noite, sob os pontos luminosos, levando a doença para todos.

Repleto de momentos interessantes, Calafrios deixa ver um diretor canhestro na disposição de personagens no quadro, sobretudo nas apresentações e diálogos iniciais. Esses momentos soam amadores. A recompensa vem depois, pelo pouco ou nenhum medo de soar exagerado, de confundir, até de escandalizar, sempre entre o desejo e o caos absoluto.

(Shivers, David Cronenberg, 1975)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Bar Luva Dourada, de Fatih Akin

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