O Bar Luva Dourada, de Fatih Akin

Superar a crueldade de Lars von Trier e seu A Casa que Jack Construiu parecia impossível. Com O Bar Luva Dourada, Fatih Akin aproxima-se do feito. Entre um e outro, mais diferenças que semelhanças. Enquanto von Trier trabalha a crueldade em câmera gélida, Akin oferece mofo, fedor, caricaturas.

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E se von Trier faz da caminhada do assassino um olhar do mesmo ao seu interior, em descida ao inferno, Akin empurra o espectador para o lado externo, a começar pelo bar do título e pela fauna fantástica que o habita. Pela livre escrotidão, Akin em nada quer ser real. Seu filme é um teste – e, nesse sentido, aproxima-se do longa de von Trier.

Ambos – tão diferentes – prendem o espectador aos piores homens, aos piores atos, a crimes sem limites e, por instantes, a gestos ainda mais impensáveis que o homicídio (em geral, a atitude que fica pelo caminho). Mais que testar os nervos do público, os realizadores obrigam que se questione o poder de encantamento do cinema em casos assim.

O Bar Luva Dourada é melhor que A Casa que Jack Construiu. Entender a projeção-identificação gerada pela totalidade e não pela personagem em cena é o desafio central a quem reconhece a apreciação. Mirar a tela para mirar a si próprio: a função central do cinema, e da arte. O filme de Akin é um exercício de medo e dúvida.

Nada a agarrar senão o todo, os ambientes, as relações, a expressão de uma certa natureza humana em flerte com a falsidade. Não se nega que figuras como Fritz Honka (Jonas Dassler) possam existir. A partir de história verdadeira, Akin constrói uma jornada de esquisitices e imperfeições, do idiota que só pode ser detido por ação do acaso.

É a história do derrotado que, pelo contexto, venceu confrontos sem ter qualquer noção aparente de seus feitos. Sequer calculava ou perseguia mulheres. Seus atos são frutos de circunstâncias, embalados pelo álcool e pela impotência sexual. Matou várias mulheres e não foi punido. Por que a polícia não enxergou Fritz e seus crimes?

As vítimas são tão ou mais segregadas que o assassino de nariz torto e óculos quadriculados, de pele oleosa e dentes podres. São prostitutas com quase nada que aceitam continuar suas noites de bebedeira na casa do protagonista. Por lá, tudo dá errado. Mortas, são cortadas em pedaços e estes, guardados em pequeno cômodo.

Uma das possíveis vítimas, Gerda (Margarete Tiesel), diz para Fritz que tem uma filha. Após limpar sua casa, o criminoso deixa que a mulher mais velha fique por ali e se revela interessado em conhecer a filha citada, uma açougueira. Em imaginações e desejos, Fritz casa a beleza extrema de uma mulher loura e jovem – oposta àquelas que leva a seu apartamento – com a selvageria, a carne crua comida com as mãos.

O fetiche da deglutição pela mulher perfeitinha, de contornos angelicais, é a inversão do paraíso, é ceder aos instintos, ao consumo da carne e do sexo, da vontade de sangue. Sem surpresas, é o passo àquilo que Fritz está vivendo – mas sem a loura dos seus sonhos.

Filmes como O Bar Luva Dourada e A Casa que Jack Construiu mostram que as qualidades – ou, vá lá, a grandeza – de uma obra residem não nos monstros expressos na tela, com os quais ninguém deverá (ou deveria) concordar. Residem sobretudo no universo proposto, no fascínio pela sociedade de valores invertidos, na percepção da podridão à qual o homem pode chegar. A despeito de alguma teatralidade, os casos reproduzem algo verdadeiro.

(Der goldene Handschuh, Fatih Akin, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A Casa que Jack Construiu, de Lars von Trier

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