Um filme de autor, e o “primeiro grande filme em uma nova era do marketing em Hollywood”

O Poderoso Chefão estava previsto para ser lançado no Natal de 1971. Mas devido aos vários problemas de [o produtor Robert] Evans com o corte bruto de Coppola, o estúdio adiou a première até 14 de março de 1972 e o lançamento nacional até 19 de março de 1972.

 

(…)

 

No dia 29 de março de 1972, quando a Paramount já se dera conta do evento que o filme se tornara, eles publicaram um anúncio de dez páginas na Variety listando bilheterias ao redor do país onde – e era em toda a parte – o filme obtivera recordes para os primeiros três dias, para os primeiros cinco dias e recordes estaduais. Desde o início, a Paramount anunciou O Poderoso Chefão mais como um evento do que como um filme, uma marca do estilo de marketing e de distribuição peculiares de [Frank] Yablans. É no mínimo irônico que um filme de autor tão legendário também tenha sido o primeiro grande filme em uma nova era do marketing em Hollywood, o primeiro em um antigo estúdio comandado por um novo tipo de executivo, um tipo que entendia bem menos sobre filmes do que sobre dinheiro.

 

Duas semanas depois, a Paramount publicou um anúncio de duas páginas apresentando trechos de 39 resenhas. Mas, mesmo nesta propaganda mais tradicional, os recordes de bilheteria do filme vinham em destaque. Em grandes letras de forma impressas acima e abaixo das resenhas, era possível ler: “De cidade a cidade, estado a estado, costa a costa, O Poderoso Chefão é agora um fenômeno”.

 

Seria difícil superestimar o impacto – na Paramount, na indústria como um todo – do estrondoso sucesso de bilheteria de O Poderoso Chefão. Como exatamente era possível reproduzir aquele sucesso era uma questão grande e difícil, mas a quantidade de dinheiro que um estúdio poderia arrecadar a partir de uma só propriedade parecia alterada para sempre. Ao longo dos primeiros seis meses de 1972, O Poderoso Chefão arrecadou mais de 30 milhões de dólares, aproximadamente o dobro que o blockbuster da Paramount Love Story arrecadara no mesmo período no ano anterior e quatro vezes as receitas obtidas pelo filme mais visto (entre janeiro e junho) em 1970, Aeroporto.

 

O sucesso do filme também teve impactos imediatos em Wall Street. A menos de um mês da première de O Poderoso Chefão, uma ação da Gulf and Western valia 44,75 dólares, uma alta histórica. Durante a semana de 3 a 10 de abril, a venda de ações da Gulf and Western foi suspensa duas vezes, e foi invocado um requisito de margem de 100 por cento, duas regras relativamente raras no mercado de ações, designadas a estabilizar uma ação volátil. Ao final do ano, a Divisão de Lazer da Paramount Pictures da Gulf and Western apresentou lucros operacionais anteriores aos impostos no valor de 31,2 milhões de dólares, uma alta de 55% em relação ao ano anterior.

 

No começo de dezembro de 1972, após a temporada de lançamento de maior sucesso de um filme na história, Yablans anunciou que a Paramount planejava parar de distribuir O Poderoso Chefão a partir de 31 de dezembro. O plano na época era relançar o filme no dia 28 de março de 1973, o dia seguinte à premiação do Oscar. Era uma aposta arriscada. Evans e Yablans se lembraram da última vez em que tentaram estratégia parecida, com Love Story indo muito mal no relançamento, após faturar apenas um prêmio menor, de Melhor Trilha Sonora, em 1971.

 

Na noite do Oscar, O Poderoso Chefão foi bem melhor do que seu antecessor, vencendo as categorias de Melhor Filme, Melhor Ator (Brando) e Melhor Roteiro. O Poderoso Chefão foi relançado para uma segunda temporada bem-sucedida e então, em um negócio espantosamente lucrativo, a NBC-TV pagou o maior valor da história por uma única exibição do filme na televisão aberta. Apesar de suas temporadas nas bilheterias e de sua venda para a televisão terem quebrado recordes da indústria, a melhor notícia para a Paramount foi que, graças a Robert Evans, o estúdio detinha mais de 84% do filme, e, portanto, não precisava dividir a riqueza com mais ninguém.

Jon Lewis, professor e escritor, em texto reproduzido no catálogo da mostra Francis Ford Coppola, o Cronista da América, do Centro Cultural Banco do Brasil e do Sesc (“Se a História nos ensinou alguma coisa…”, pgs. 89-91). Acima, cena de O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola.

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Veja também:
Vídeo: a transformação de Michael Corleone em O Poderoso Chefão

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