Trens Estreitamente Vigiados, de Jirí Menzel

A pequena cidade na qual os trens de guerra são “estreitamente vigiados” é o espaço dos carimbos e da ejaculação precoce, da igreja em que se cometem pecados, da adolescente que ri dos adultos idiotas ao redor. Ela quis fazer sexo com seu colega de trabalho porque sentiu vontade, o que não parece normal aos que fingem normalidade.

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O fingimento é comum aos que se prendem às fardas, que esperam os trens, sobretudo aos seus superiores: aqueles que falam das glórias de uma certa juventude hitlerista, puros que aceitaram o sacrifício de lutar na guerra. O oposto a essa narrativa pode ser visto no herói em formação de Trens Estreitamente Vigiados, Milos (Václav Neckár).

O que falta a ele é o que sobra à menina citada no início do texto: a maneira de viver despido de ansiedades, ou simplesmente viver. Aos ombros do protagonista recai a farda. Nem quando está na cama com a namorada retira o quepe, o do guardião das linhas de ferro que podem ser vistas de sua casa, e que guardam histórias de seus antepassados.

A história dessa família, como ele conta na abertura, vem em tom cômico: a do bisavô que perdeu uma perna, a do avô mágico que tentou parar os trens alemães, a do pai que se aposentou e que nada faz além de assistir, deitado, aos trens de passagem – como se vê no momento em que o filho prepara-se para o primeiro dia de trabalho.

A Tchecoslováquia em questão, na Segunda Guerra Mundial, oferece a orla da História: os nazistas que não resistem às belas enfermeiras em vagão parado, as armas levadas à guerra, os resistentes que atacam invasores e inimigos, os quadros pintados por um maquinista – entre eles o de uma mulher nua – e estampados sobre o trem parado.

Resumo melhor para esse filme não há: a arte sobrepõe-se à máquina, a libertinagem às engrenagens metálicas, a liberdade à guerra. Para Milos, os primeiros dias do novo emprego são de libertação: primeiro, e mais difícil, rumo ao sexo; depois, possivelmente à política que pouco parece dominar. Em algum ponto, esses fatores encontram-se.

Acontece que Milos não conseguiu fazer sexo com sua companheira, Mása (Jitka Scoffin). Sofreu uma ejaculação precoce. Desanimado, sentindo-se um fracasso, aluga um quarto e resolve cortar os pulsos. Salvo, retorna ao trabalho. Seus pulsos todos querem ver. É por eles, também, que parece ser poupado quando feito refém de um rebelde.

O que pode salvá-lo, crê, é o contato com outra mulher, alguém livre o suficiente para ensiná-lo os caminhos da carne, para que com ela tenha momentos sem as ansiedades que costumeiramente recaem a meninos apressados ou muito retraídos como ele. A ejaculação precoce tem aqui esse duplo sentido: muita força e força alguma.

“Quando chegou a hora, murchei como um lírio”, afirma, sobre sua primeira experiência sexual. A dama que pode lhe conceder a esperada noite e que o guia ao seu gesto heroico, no dia seguinte, no atentado contra os alemães, é justamente uma militante da resistência, justamente a que leva a bomba para ele cumprir sua missão. E, em gesto igualmente heroico, ao rapaz oferece sexo, libertação, respiro para seguir vivendo.

A menina livre e sorridente, citada no início, é interpretada por Jitka Zelenohorská. Precisa de quase nada para conferir graça, desejo e ingenuidade, a oferecer o corpo como espaço ao carimbo do colega Hubicka (Josef Somr). Primeiro nas pernas, depois no glúteo. O principal sinal da dominação alemã – a letra do invasor – relaciona-se ao corpo feminino, busca central em um filme sobre homens maiores que máquinas.

Essa comédia de guerra é esculpida por Jirí Menzel ora como um reino de dor, de corpos abatidos, ora em meio à fragilidade de seus cenários, à ventania que carrega pessoas, como em um filme mudo da Keystone. Nesse país marcado pelo carimbo, Milos desponta como o herói provável ao momento absurdo, mais tarde confiante e livre.

(Ostre sledované vlaky, Jirí Menzel, 1966)

Nota: ★★★★★

Veja também:
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