Vereda da Salvação, de Anselmo Duarte

A cegueira impele as personagens à morte enquanto acreditam levitar, ter contato com Deus, ou com anjos, ou com o estado alto – para além da copa das árvores, ponto que revela, pela câmera de Anselmo Duarte, a partícula, quem está abaixo. Ou seja, todos. São seres pequenos, presos a nada senão a tudo o que possuem: a religiosidade.

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Poucos filmes são tão cruéis na representação da alienação de um povo. Vereda da Salvação constata o que o filme anterior de Anselmo, O Pagador de Promessas, parecia anunciar: as forças militares estariam a postos para liquidar quem deixasse de servir outro deus que não o do sistema em questão, os senhores da lavoura, os donos da terra.

Ainda assim, Duarte, a partir da obra de Jorge Andrade, não dá vazão a alguém ou a um pequeno grupo que se desgrude e se salve. Tampouco rosto aos que empunham rifles entre a mata, com a mira voltada aos camponeses presos ao delírio da transcendência. Restam apenas as crianças, poucas, entre o que sobrou do incêndio sob a chuva.

Nada está à frente da religião para essas pessoas, confinadas em labirintos próprios. Alienadas ao senhor de terras com alguma consciência, veem-se presas a Deus de corpo e alma, dispostas a relaxar nos dias que se seguem, crentes de que serão salvas. Pobres almas atrás do paraíso, às quais nem as balas poderiam perfurar seus corpos.

Na aldeia em que de desdobra o texto, Manuel (José Parisi) e sua companheira, Artuliana (Esther Mellinger), tentam não se deixar levar pelo fanatismo dos demais. Não serão poupados. A serenidade dele encontra paralelo na força que ela expõe, mulher empoderada que diz que faz sexo com ele porque quer, e que aos outros nada deve.

Ela está grávida. O casamento de ambos deverá ocorrer no dia seguinte. O anúncio do filho, a certa altura, não será bem recebido pelo grupo religioso que domina a pequena aldeia – sobretudo por Joaquim (Raul Cortez), que acredita ser Cristo e vê na mãe uma mulher virgem. Não sabe que é o sétimo filho da mesma mulher, único sobrevivente.

É o caso de história em que todos os lados oferecem uma saída física, e todos são ignorados. Manuel e sua companheira são presos. Ela é espancada, recebe golpes na barriga; o menor sinal do Diabo é combatido, até mesmo em uma criança. Duarte não nos poupa, tampouco elege monstros fáceis: a condição à qual todos são lançados mistura alienação física à espiritual, entre o arame farpado e a Bíblia Sagrada.

Manuel conta, no início, como as cercas apoderaram-se dos mais pobres: em pouco tempo, o paraíso de terras abertas tornou-se fechado. O arame é posto sobre o tronco fincado no solo, martelado. O homem dá seus sinais de dominação e, antes livres, pessoas como Manuel foram enjauladas, obrigadas a servir os donos da terra.

O fanatismo religioso, por isso, é a linha final que essas mesmas pessoas precisam cruzar para sobreviver. Ou para morrer com algum sentido de libertação, ainda que claramente enganoso. O sacrifício tem sentido oposto ao de seu filme anterior, que oferece a Zé do Burro, herói simples e destemido, o acesso simbólico à redenção espiritual.

Segundo Duarte, Glauber Rocha inspirou-se na “essência” da peça de Andrade para compor Deus e o Diabo na Terra do Sol. Há semelhanças claras, como o povo religiosamente alienado e o homem considerado rebelde. Ao contrário de Duarte, Glauber oferece uma saída ao protagonista de consciência em formação, para além de Deus e do Diabo – sem a mesma dose de amargor e niilismo, e a despeito das crianças que resistem.

(Idem, Anselmo Duarte, 1965)

Nota: ★★★★☆

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