Uma Vida Oculta, de Terrence Malick

A consciência é um escudo, a última morada da paz em tempos de autoritarismo no poder. Ainda que o corpo sofra, o interior do homem, Franz Jägerstätter (August Diehl), segue intacto. Figura rara, não há dúvida. Em Uma Vida Oculta, ele caminha por campos abertos, capelas, ama a mulher e, contra a obediência cega ao nazismo, termina preso.

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Homem natural como tantos de Terrence Malick, expostos à distância suficiente para que não sejam vistos pequenos tropeços ou defeitos, idiossincrasias, como se a câmera fosse a visão de Deus. Nesse caso, como é comum em outros filmes de Malick, o oposto também se aplica: as narrações das personagens são dirigidas diretamente a Deus – e ao público.

O que se põe entre o homem e Deus é justamente essa “vida oculta”, agora intermediada pela câmera intrusa, navegante, pela flutuação da misè-en-scene da qual nem as trepidações retiram a beleza total. Nem os buracos nos quais Franz é confinado, nem o barro incrustado nos dedos de sua mulher, quando luta com a natureza.

A absolvição é íntima à palavra, à medida que o conflito repousa nas imagens. Não há qualquer dúvida de que Franz, em seu calvário, está salvo – mesmo quando se dirige à execução. Com os nazistas no poder, ele segue caminho contrário à manada. Bastaria assinar um papel, repetir algum texto para se ver livre. Prefere o silêncio. Questão de palavra.

A vida perfeita nos campos da Áustria só será quebrada pela imposição da política e das ideologias que aportam com fardas. Qualquer sinal externo, pequeno que seja, provoca medo, como as passagens rápidas do carteiro. Logo a posição de Franz fica clara, ganha a boca pequena, o que o faz ser perseguido no interior de sua comunidade.

Os homens intimidam-no. As mulheres cospem no caminho de sua esposa, Fani (Valerie Pachner), que não coloca o amor à frente da convicção do marido. Esses seres fortes, “ocultos”, despejam na tela a fagulha da revolta que até o fim não se concretiza. A revolta é contida justamente em seus interiores, em personagens que ainda almejam, pela palavra, como é o caso de Fani, um tempo para saber, enfim, o que tudo aquilo significou.

Malick propõe esse movimento nobre: presas à fé, em ligação direta com Deus e de consciência intactas, as personagens – Franz ou Fani – nunca apelam ao físico apesar de toda a natureza ao redor, as nuvens que anunciam a tempestade, a terra difícil de penetrar mesmo com a ajuda do bovino, a madeira rústica que não rompe.

O paraíso, como em todos os filmes de Malick, é quebrado. A vida perfeita – em suas imagens perfeitas, no esgarçar das mesmas com a objetiva grande-angular – chega a ser cansativa. A vida como idealização, sem grandes conflitos internos. Fica o essencial: a palavra a Deus, a palavra de amor, a tentativa de se bloquear dos problemas do mundo.

De tão grande o drama, termina apequenado. Triste paradoxo o de Malick: a insistência nessa observação divina culmina invariavelmente no terreno oco em que a tragédia é sugerida, nunca entregue por completo. O nazismo é a tragédia do autoritarismo, a cegueira, outra religião à qual se deve jurar obediência, à qual inclusive a Igreja jurou.

Franz precisa encontrar Deus fora da capela, para além de seus tetos ovais, da instituição física. Ali, o artista reflete e pinta o sofrimento. “Como posso mostrar o que não vivi?”, questiona o pintor. Malick faz destas as suas palavras: seu filme é sobre uma vida oculta, portanto uma vida que ele não viveu ou presenciou. Por isso, e no limite, um filme abstrato, imaginativo, sobre uma consciência inabalável, sobre a alma.

(A Hidden Life, Terrence Malick, 2019)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
1917, de Sam Mendes

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