O Homem Errado, de Alfred Hitchcock

Três homens mal-encarados esperam por Manny Balestrero na frente de sua casa. O chamado não é comum. Presenças tampouco. Deveria ser um anoitecer como outro qualquer. Os três homens são policiais e estão atrás de um criminoso. Confundido, esmagado, colocado no banco traseiro do carro da polícia e depois em cela, o protagonista está preso.

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Manny tem vida simples. Alfred Hitchcock não o torna outro nem quando sua rotina tem uma virada. Ao contrário, sua humanidade calada – na profunda coleção de gestos discretos de Henry Fonda, o mais honesto dos atores – faz com que quase aceite seu destino, incontornável como parece. Àqueles ao redor, indiferentes, mecânicos, não pode gritar.

O Homem Errado, desde o título, é sobre alguém inocente. Pouco além dos créditos, não se tem mais dúvida sobre o que esse homem pode ou não pode fazer. Assaltar, impossível; matar, ainda menos. É alguém comum, nada heroico, para o filme mais realista do mestre do suspense, em alguma medida seu anti-suspense.

Hitchcock leva o espectador aos meandros do sistema punitivo americano, aos espaços secos e escuros do poder, da polícia, da Justiça, aos casulos nos quais todos são números. No ambiente kafkiano em que, de novo, homens gritam calados, em que qualquer excesso contribui à ojeriza dos outros em relação ao condenado. As certezas estão dadas.

Leva, sobretudo, ao estado de culpa intrínseco ao homem comum, despido mas trancado, aguardado todos os dias, no mesmo horário, pela mulher acordada, à cama. Não vai a ela sem observar os filhos dormindo no outro cômodo. Um único dia, aqui, para se entender o que ele fez em boa parte da vida. O crime do qual é acusado vem para revirar isso.

A culpa tem eco religioso. Pouco antes de entrar na cela, exibe ao policial seu terço, com o qual pode ficar no cárcere; à frente, sem caminho, sem álibi, encurralado pelo sistema implacável, com a mulher enlouquecida e a mãe que pede que ore, não resta a Manny outra ação senão encarar a pintura de Cristo e, talvez, ter o caminho iluminado.

E ele vem. Não de maneira abrupta, mas pela fusão visual proposta por Hitchcock, entre o homem em casa, orando, e o da rua, o verdadeiro criminoso, outra vez perto de cometer um delito. Sobre essa questão, François Truffaut observa: “Esse é certamente o plano mais bonito de toda a obra de Hitchcock e a resume: é a transferência da culpa, o tema do duplo, decodificável desde suas primeiras obras inglesas até as últimas”.

O trajeto de Manny é marcado pelas sombras. À noite ou de dia, a cidade é real, o cárcere é tão pequeno quanto se suspeita que seja, o cômodo do casal é simples como se imagina. Como em tantos outros espaços, dentro ou fora da casa de família, os abajures direcionam luzes não para essas pessoas, mas para baixo, para outro ponto.

As luzes salientam um ponto de consciência, de vida, caminho aberto ao homem em pé durante a abertura, através de seu feixe, entre bordas escuras. Por isso mesmo nem sempre recaem nas personagens que se debatem para encontrar uma saída. Músico, Manny vê o enlouquecimento da mulher como fruto desse universo que não deixa espaço ao alívio, como se tudo não passasse de jogo, conspiração contra inocentes.

A quebra do padrão – da família, da rotina, dos sinais conhecidos – reforça o ocaso do protagonista. Igual a muitos, de chapéu e sobretudo, rosto um pouco quadrado, assustado, com contas a pagar, à espera de algo melhor – por isso confundido com um zé-ninguém. Seu duplo é seu oposto, ao mesmo tempo seu reflexo.

Em loja de bebidas, na qual é obrigado a caminhar para que o balconista faça seu reconhecimento, espreitam garrafas e mais garrafas, prateleiras abarrotadas pelo produto. A repetição, por todos os lados, sufoca. O terror vive no real, sem golpes do destino, sem reviravoltas mirabolantes comuns a outros filmes de Hitchcock.

(The Wrong Man, Alfred Hitchcock, 1956)

Nota: ★★★★☆

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