Hitler, um Filme da Alemanha, de Hans-Jürgen Syberberg

O ditador vive em todos, não em um. Sua projeção à tela conduz ao fantástico, à aparência teatral, ao efeito tentador de se perder dele enquanto o mesmo está em todos os cantos. A proposta – Adolf Hitler como ideia, não como pessoa – ajuda a compreender um pouco do pesadelo alemão, das ligações religiosas, das relações com o cinema.

Curta nossa página no Facebook e siga nosso canal no YouTube

Para Hitler, um Filme da Alemanha, Hans-Jürgen Syberberg recusa a projeção opaca. Ao contrário, é verdadeira apesar de teatral, compromissada com fatos apesar das interpretações que acarretam. O espírito em questão – Hitler como ideia, como assombro – fornece material de sobra para se pensar a realidade a partir do palco.

Realidades nascidas de sentimentos, como provocações, projeções do interior de um povo que colocou Hitler no poder – e por isso as do próprio Hitler, que refletem sua massa (ou parte dela). Soluções visuais, em cena, assumem um corpo que ali não está, ao mesmo tempo está em demasia. Hitler, o ditador, eterno vilão, representação, marca – esse ser abjeto que curiosamente guiou uma nação à guerra.

À própria noção de grandeza casa-se a insuportável fragilidade da plástica. O filme de Syberberg é um ovni, algo estranho, nada a ver com a maior parte – ou a totalidade – do que se fez sobre a personagem-título, o homem que abalou o século. É uma proposta de aprofundamento sem equivalência quando se pensa no ator ao centro do palco.

Há de se repetir esse espaço, essa redoma, esse terreno perfeito às transmutações do ser que ali nunca está, ou nunca por completo: o palco. Para pensar o ditador, vai-se ao povo de sua nação – antes quebrada, depois com algo a encontrar, a confiar, à sombra do “salvador da pátria”. Vai-se ao cinema, arte necessária para esse projeto de poder.

Hitler, um Filme da Alemanha é moldado a episódios diferentes que convergem ao mesmo centro, em quatro partes, permeado por provocações que vão da religião à arte, da justiça ao antissemitismo. Nunca houve filme semelhante sobre tal homem, executado em sete horas com muitos monólogos e diálogos, com muitas vozes das quais não se busca qualquer identificação – ainda que algumas a tenham – senão a de Hitler.

Se tal líder foi escolhido pela nação, em seu julgamento essa mesma nação não seria levada ao banco dos réus? Ou ao banco das consciências perdidas, ao labirinto que deve dar vazão, crê-se, à razão e ao entendimento? Pois a arte, a de Syberberg, será perfeita para confrontar o monstro nazista por trás do bigodinho, estrela de Leni Riefenstahl.

Como afirma o crítico Serge Daney, Syberberg “vai pedir a Hitler, esse outro (mau) cineasta, uma prestação de contas. Ele o vence voltando contra ele suas próprias armas, no final de um duelo titânico de sete horas: um filme”. Daney dirá ainda, em seguida, que se trata de “um delírio”, mas também de “moral”. “Delírio da moral.”

Em algum ponto, o artista precisa reconhecer o ditador como algo equivalente, como outro artista, dono da mais poderosa projeção-identificação de seu tempo: “outro (mau) cineasta”. Hitler é, nesse caso, um filme, uma obra, ao que parece inclinada à propaganda, proposta para se mergulhar no “pior dos homens” à medida que se evoca o graal.

O símbolo religioso transborda da consciência alemã, da ideia do escolhido. O objeto usado por Cristo na última ceia. No início, o narrador diz que entre as boas coisas da vida e o Paraíso dos sonhos, o homem prefere o segundo, mesmo sabendo de sua falsidade; e diz que “tudo é fictício”, enquanto a câmera segue à gota d’água.

O narrador provoca, é o próprio Syberberg (em sua ou em outra voz): a democracia é a própria causadora da miséria do mundo. Seria essa, então, a senha para se erguer o ditador, coroar o homem-propaganda que, depois de morto, será apropriado justamente pela indústria, como marca a vender viagens e ingressos, a gerar dinheiro? Ironia em excesso, claro.

Hitler, continua o narrador, “sabia que no altar da fé se exigem sacrifícios cruentos”, e o que sacrifica “é um dos escolhidos, um povo escolhido”. Em seguida, o Holocausto, igualmente o esmagamento de parte dos alemães. Da tumba de Wagner, Hitler diz que foi chamado primeiro pela burguesia, depois pelos militares. Diz que deu objetivos à juventude. “Eu lhes dei o que eles depositaram em mim, o que quiseram ouvir e fazer, e também o que não se atreveriam.” O próprio palco alimento o duplo.

Assim, por esse golpe da arte (não um golpe sujo, que fique claro), o exorcismo de um certo pensamento não se limita “apenas” a encontrar o problema por trás do monstro, mas a se reconhecer parte do mesmo. O ventriloquista empunha o boneco, seu outro, seu interior: o boneco de Hitler. O boneco fala com a voz do próprio homem, duela com este como se dele tivesse conquistado independência: é o outro e o outro o é.

Em seu Dicionário de Cinema, Jean Tulard traz declarações de Syberberg que ajudam a compreender seus objetivos e sua obra: “Trata-se de um filme cujo tema somos nós, o Hitler em nós”. Abordagem mais complexa – e, por que não, mais autêntica – do que qualquer outra em que a personagem é o que se espera dela, o outro, o oposto, o ditador distante.

(Hitler, ein Film aus Deutschland, Hans-Jürgen Syberberg, 1977)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
As estátuas vivas de Leni Riefenstahl

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s