Saiam do mar: o que o filme Tubarão tem a ensinar sobre a crise do coronavírus

Ao constatar que um tubarão oferece risco à vida das pessoas que se banham nas águas do mar, o protagonista, policial de uma pequena cidade que vive do turismo, pede a interdição do espaço. Entrar no mar pode levar à morte.

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É o ponto de partida de Tubarão, de Steven Spielberg, ótima metáfora para a recente pandemia de coronavírus: atravessar um limite territorial pode custar a própria vida. Mais ainda, o filme diz muito sobre como o poder público lida com a questão – para o bem ou para o mal – e como subestimar a fera pode ser letal a todos.

No mar, o inimigo é desconhecido, demora a dar as caras. Em terra, é o prefeito da pequena cidade, o político corrupto que finge não enxergar o problema. Interpretado por Murray Hamilton, é o tipo asqueroso que coloca os negócios à frente da vida das pessoas: fechar praias significa afugentar turistas e, por consequência, ver a economia da cidade derreter.

Spielberg faz do político – figura segunda em quase toda a obra, vale ressaltar – alguém que prefere os negócios, a aparente normalidade, a negar o grande monstro ainda invisível aos olhos, capaz de arrastar qualquer um ao fundo do oceano. Abertamente caricato, ele “desconfia”, por conveniência, do verdadeiro problema que recai sobre aquelas águas. Só se dobra à constatação do mal quando o rastro de morte é incontornável.

“Como O Poderoso Chefão, Tubarão era um filme do seu tempo, um olhar pós-Watergate sobre a autoridade corrupta”, observa Peter Biskind em Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood. A tempos sombrios casam-se possibilidades: uma praga, uma epidemia, uma peste, qualquer uma delas a encontrar representação no monstro.

Outros homens em cena, a começar pelo policial e protagonista interpretado por Roy Scheider, percebem o problema, não exatamente sua dimensão. Melhor não subestimar a natureza, descobre o herói ao longo da jornada. Não por acaso, a frase mais famosa tem a ver com o imprevisto: “Vamos precisar de um barco maior”.

A frase sucede o encontro com o monstro, momento em que o policial, em alto mar, em seu barco pequeno e na companhia de outros dois homens, encara o problema e percebe enfim o tamanho da encrenca. Sua força e capacidade de matar são maiores do que imaginava.

Mal invisível
Sob as águas, Spielberg limita-se, até certo ponto, ao terror. Não mostrar a criatura traz mais pavor que o oposto. Lição dada por alguns grandes mestres: lidar com a expectativa, com o medo em estado crescente. A fera é revelada no momento em que o filme de terror transmuta-se em aventura, quando os três homens partem para caçá-la.

Em célebre crítica do filme de Spielberg, Serge Daney observa a simbologia da sequência inicial, quando os jovens, em roda, cantam e se entregam aos prazeres da carne. “Ofendido, o mar (mãe) investe o tubarão e envia seus dentes.” Nesse sentido, pode-se tomar da análise inclusive um sentido religioso: a natureza (Deus) vinga-se dos jovens pecadores. Não faltam exemplos de crises epidêmicas nas quais o homem, aos olhos dos mais fanáticos, é vítima da ira de um Deus punitivo.

O crítico também observa que, após a morte inicial, as relações sexuais do filme estão suspensas. Do policial, com sua mulher sempre por perto, vem apenas o medo; do político corrupto vem a negação da doença que passa pelo turismo, ou seja, a insistência na normalidade que o torna um fascista – sob o terno que destoa do ambiente praiano.

Se as personagens da abertura representam a geração jovem dos anos 60 e 70, hippies a confraternizar em roda e buscar no mar, à noite, refúgio de liberdade e prazer sexual, a fera vem para cessar essa tendência. A seguir, o filme converte-se no espaço de adultos ou crianças, do homem vigilante que divide seu olhar entre aqueles que se banham. 

A próxima vítima pode ser um menino, uma senhora ou mesmo um cão que brinca com seu dono. Vem a ser o primeiro, o mais frágil, seguido pelo olhar da fera submersa. Sem ser visto, a atacar por baixo e devorar as vítimas, o tubarão é como uma doença que gera pânico e impede a entrada às águas antes convidativas ao sexo ou ao simples lazer. A vítima é a própria aglomeração sob a qual (ou pela qual) circula o peixe.

Todos contra o monstro
A sociedade responde e sai à caça da criatura. Em mar aberto, o policial Brody (Scheider) divide espaço em um barco com seu dono, o caçador de tubarões Quint (Robert Shaw), e o biólogo marinho Hooper (Richard Dreyfuss). São três faces distintas dessa sociedade plural, todas à vista do mesmo problema, da mesma doença a ser combatida.

O caçador e dono do barco é o conservador armado a quem a sociedade recorre para aplacar seu pânico e matar o bicho – isso, claro, após o pagamento de uma boa quantia de dinheiro; o biólogo é o liberal, contraponto ao outro, com quem disputará um curioso campeonato cujo vencedor é quem mais possui cicatrizes pelo corpo.

O policial está ao centro, entre o pragmatismo de um e a ciência do outro, submetido às ordens do político corrupto. Seu olhar ao mar, até certa altura, é de impotência: não pode fechar a praia enquanto precisa vigiá-la e é incapaz de enxergar o monstro que se aproxima.

Segundo Biskind, “Tubarão é, politicamente, um filme de centro: dos três homens que saem para enfrentar o tubarão, Quint, o machão de direita, é morto, enquanto Hooper, o judeu intelectual de esquerda, é colocado à margem da batalha, deixando para Brody, o tira comum, o Jerry Ford, o sujeito-normal-pai-de-família que estava na presidência quando o filme estreou, a tarefa de despachar o tubarão”.

A depender do país e época, o líder pode vestir a representação de Quint, que lutou na Segunda Guerra e viu homens serem devorados por tubarões. Dificilmente vestirá a representação de Hooper, a quem cabe mais pensar do que tomar decisões práticas. Por sua vez, o espectador encontra-se no lugar de Brody, à espera de ambos para matar a fera e à sombra de um político corrupto que insiste em não fazer o que deve fazer.

Veja também:
As cartas trocadas entre Steven Spielberg e Billy Wilder

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