O Oficial e o Espião, de Roman Polanski

O espaço militar é também político. Lugar em que luzes custam a penetrar o ambiente envelhecido, o passado escancarado, a velha mobília e as cartas rasgadas. Curiosamente, uma delas, remendada, está na parede, em quadro, exposta como troféu e prova de traição.

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A carta em questão teria sido escrita por Alfred Dreyfus, à frente de um famoso caso de injustiça, condenado de traição pelo Exército Francês. Teria, dizem os acusadores, os formuladores de provas, passado informações aos alemães. Para Roman Polanski, interessa mais o pedaço, menos a carta toda. Faz do fragmento caído no chão a fagulha que resume O Oficial e o Espião: é a peça a ser encaixada, verdade fora do lugar.

Por outro lado, a costura e a sobrevivência da “prova” nem sempre garantem a verdade. Dependerá do entendimento de quem a manipula, o que torna o pedaço de papel ainda mais representativo: ainda que se necessite do pequeno item, ele não será o ponto final da jornada por espaços de medo e perseguição, homens fardados e obediência.

Talvez porque seja justamente frágil, porque nada tem a ver com o material humano, com palavras que morrem depois do corte e renascem da operação delicada, do quebra-cabeça. Quem percebe a dificuldade de encontrar o traço correto e, por isso, acusar Dreyfus, é o coronel Georges Picquart (Jean Dujardin). Ele desconfia, deixa-se tomar pela dúvida.

No reino em que todos têm suas “certezas”, Picquart quer reabrir tumbas, arquivos que, por algum motivo, alvos de reclamação de um alto oficial, não foram queimados. Os homens são assim, diz Polanski: insistem em guardar erros, crentes o suficiente no desinteresse alheio, na improvável curiosidade ou senso de justiça de alguém.

Ao olhar a carta e atravessar seus remendos, pedaço a pedaço, Picquart percebe o que pode ser um erro. Os outros sempre falam dos judeus, sempre qualificam alguém por suas linhagens. Aos poucos, tão claro ao espectador quanto ao protagonista, o antissemitismo corre solto, inclusive em Picquart, que confessa a Dreyfus não gostar de judeus.

O que não lhe impede de evitar a justiça. Alguém como Picquart precisa demolir um pouco de sua natureza preconceituosa – não toda, certamente – quando a verdade está em jogo, quando a mentira foi capitaneada por homens de farda, seus companheiros de gabinete, pelas figuras idiotas, cegas, apegadas demais ao corporativismo.

O Exército, sob o risco de ver sua imagem incinerada, prefere que o judeu permaneça preso na pequena ilha no meio do nada, no oceano, da qual Polanski distancia-se em exata transição. Alguém como Dreyfuss precisa ser sepultado, preso à cama pelos pés, no centro daquele falso paraíso em que soldados vagam e representam a imagem da vida que lhe resta.

A escolha de Picquart como protagonista conduz o filme aos meandros da politicagem, das artimanhas de um setor de Inteligência, igualmente ao espaço de homens asquerosos, senhores antissemitas que carregam pompa e desfaçatez em igual medida. Ainda que vilões sejam fáceis de ver, O Oficial e o Espião não quer eleger heróis.

Por sinal, Picquart e Dreyfus nunca serão amigos. O salvador dá lugar ao homem que apenas quer justiça, para além de instituições, grupos e fé cega. Para além da turba enlouquecida e que lança à fogueira os livros de Émile Zola. No fim das contas, faz-se justiça em um universo – um país, neste caso – que não pode ser justo para sempre: mais tarde, Dreyfus não poderá contar os anos de cárcere para a elevação de sua patente.

Como a vítima do erro, Louis Garrel carrega óculos pequenos, fala pouco, envelhece rápido. Polanski faz do símbolo recente de um certo jovem francês blasé – em tantos filmes passados, como Amantes Constantes e Em Paris – o militar abatido, sem paixão, ressuscitado como a carta que o incriminou e depois serviu para abrir os olhos de outro homem que apenas leu-a com atenção, ou que apenas decidiu olhar de verdade.

(J’accuse, Roman Polanski, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Polanski e o Holocausto

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