O Homem Invisível: o clássico e o moderno

Os vilões de O Homem Invisível lidam com seus poderes de maneiras diferentes, ou opostas: na versão clássica de James Whale, ele precisa afirmar sua invisibilidade e existência como forma de poder; na moderna de Leigh Whannell, ele mantém-se nos limites da não existência aos olhos dos demais, como um fantasma.

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Aparecer não significa ser visto. Para o vilão da versão de 1933, sua segunda pele é posta sobre sua invisibilidade: as ataduras, as roupas e os óculos. Precisa ter forma, parecer palpável a um público que clamava pelo contorno ou por certa ideia de visão. Para o vilão moderno, o que assusta é a possibilidade de estar.

Não por acaso, a segunda pele do inventor moderno está abaixo de sua invisibilidade. É ela própria quem a produz, roupa emborrachada e escura que injeta uma nova camada: o homem invisível pode ser mais de um, não é produto de poção mágica, mas da roupa criada pelos milagres da tecnologia, em tempos em que todos desejam ser vistos.

O novo vilão é filho do mundo belo, limpo, do design arrojado, da arquitetura reta e opulenta, de laboratórios brilhosos, das paredes de vidro que levam ao mar e, por isso, à dificuldade de escapar da clausura. Desde os créditos, com a água que quebra nos rochedos, essa é a história de alguém que precisa se dissolver, não existir para cumprir uma missão.

Do filme do mestre Whale, pai do Frankenstein do cinema e de sua noiva, sai um vilão (Claude Rains) às vezes dado à galhofa, ser ruidoso que tenta retornar à matéria vista e, na impossibilidade, perseguido pela polícia, afirma quem é e quem sempre quis ser, embebedado à loucura: o fantasma do caos, a roubar bancos e descarrilar trens.

Personagem que fazia sentido no mundo entre guerras de 1933, quando um certo mal corria o ar sem ser visto, fazia-se pleno nos meandros do poder: o fascismo. O filme foi lançado no ano em que o nazismo subiu ao poder. O homem invisível clama sua existência enquanto a lei e a ordem custam a agarrá-lo, alguém à margem que se move ao centro.

O caminho do novo homem invisível é outro. A pauta que permeia o filme também. A versão de Whannell, autor do roteiro, apresenta o universo de uma mulher perseguida pelo companheiro. A heroína, no início, escapa da fortaleza dele, tenta começar uma nova vida para longe dos domínios do controlador, que precisa desaparecer para estar.

Aos olhos da sociedade, a abusador será invisível; ao apontar à existência dele, após seu suposto suicídio, a mulher é considerada louca. O mal da invisibilidade, portanto, assume tons diferentes, na batalha íntima entre pessoas que por muito tempo se viram presas a si mesmas e, ao criminoso, gêmeas que não podiam se separar.

Para ter a mulher para sempre, o homem torna-se fantasma, figura ausente mas presente, a colocar todo seu experimento a serviço da obsessão relacionada à companheira. Não estranha que por trás desse jogo resida um ser impotente, covarde, que se faz invisível a quase todos enquanto respira nas costas da vítima, para ela um fantasma.

No filme clássico de Whale, o vilão quer ser visto mesmo que em partes. Às vezes um corpo sem cabeça, às vezes uma calça em movimento. Para o moderno resta o vazio, espaço do qual Whannell serve-se nos momentos em que a mulher está fora de campo. A câmera reivindica a presença do mal, dá pistas, sugere, o que torna o filme assustador.

O vilão de Whale está em algum lugar enquanto o de Whannell pode estar em todos – inclusive na cabeça da vítima. Outra vez, a abordagem da invisibilidade indica o que desejam os filmes em questão: se para o primeiro o mal depende exclusivamente do movimento de um objeto ou dos efeitos especiais, para o segundo o que há de mais aterrorizante é a união entre homem e ambiente, a câmera que foca o nada para causar medo.

Ambos os filmes partem do livro de H.G. Wells – sustento ao primeiro, mero flerte ao segundo. A certa altura, Whannell dá uma piscadela para Whale. No hospital após sofrer um desmaio, a protagonista (Elisabeth Moss) vê passar pela porta de um dos quartos um homem enfaixado, semelhante ao vilão da versão clássica. Assustador mas fácil de enxergar, monstro a preencher espaço, como antigamente.

(The Invisible Man, James Whale, 1933)
(The Invisible Man, Leigh Whannell, 2020)

Notas:
Versão de 1933:
★★★★☆
Versão de 2020: ★★★★☆

Veja também:
José Mojica Marins (1936-2020)

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