Entre Facas e Segredos, de Rian Johnson

Quase uma obrigação, à finalidade da sátira, que o detetive tenha nome francês. Neste caso, o sabichão que deveria ser enganado por alguém ou alguns é Benoit Blanc (Daniel Craig). Sua entrada é também previsível: já está ali, no cenário de facas, antes de estar; bate os dedos nas teclas do piano até que os interrogados incomodem-se com sua presença.

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Feita a entrada, é ele, mesmo vendado, quem rege a orquestra, a quem o tempo é o senhor da verdade. Ele espera, lança as bolas, deixa que os outros falem bastante. Une peças, enxerga partículas de barro no carpete, encontra a janela secreta que dá acesso ao quarto onde o velho homem suicidou-se em Entre Facas e Segredos, de Rian Johnson.

Como ele, o espectador sabe que não se trata apenas de suicídio. No bolo bem armado, não necessariamente capaz de saciar a fome do espectador, Johnson conduz ao gênero suspense. Suas personagens parecem estar sobre outro plano, como se capazes de enxergar suas naturezas fictícias. Nesse sentido, a comédia dá sinais de realização.

Ledo engano. A gororoba une mistério à crítica social. Desemboca no abismo entre a criada imigrante e os patrões e seus parentes oriundos daquele local de máscaras e bonecos estranhos. Tudo remete à falsidade à medida que Johnson tenta se equilibrar entre situações emocionantes e outras de pura graça, para fazer rir de seu pobre povo americano.

À exceção da protagonista, a empregada interpretada por Ana de Armas, todos vestem com prazer seus estereótipos, cheios de falsa civilidade. Ao não tocar na imigrante, ou sempre fazer dela a vítima possível, Johnson acovarda-se, soa politicamente correto. Convocar a batida expressão é inevitável: eis um filme bobo – nem engraçado nem emocionante – no qual a latina termina vitoriosa, e no qual o Capitão América sai da casa algemado.

Politicamente correto, sim, porque Johnson abusa da figura da oprimida lacrimosa que em todo o decorrer faz o público acreditar que vai pagar o pato. Justo ela, a criada que enjoa e vomita quando mente, a quem foi deixada a herança do velho suicida, justamente um escritor de romances de mistério. Os tantos caminhos possíveis só deixam certezas, ainda que a trama pareça mirabolante.

Benoit Blanc é como o espectador: só de olhar para Marta (Armas) sabe que se trata de alguém inocente. Ao lado, toda a galeria de coadjuvantes existe apenas para confundir, ou inflamar o sentimento de uma América que se finge moderna, leitora da New Yorker: ama-se o imigrante desde que ele não ouse tocar na fortuna dos donos da casa.

O gesto suicida do escritor (Christopher Plummer) mais parece o ponto final de um romance transferido à sua própria casa, com seus filhos, netos e empregados. Como já se disse, a natureza fictícia não se oculta. A história de mistério continua, dessa vez como farsa. Previsível, a herança do patriarca ajuda a liberar o que de pior há em sua linhagem.

(Knives Out, Rian Johnson, 2019)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
O Escândalo, de Jay Roach

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