A morte, ou o que resta da vida

No Japão pós-guerra, os protagonistas de idade avançada são vistos como homens loucos ou estranhos. Em Viver e Anatomia do Medo, ambos tiveram suas vidas transformadas quando passaram a encarar a morte: para o primeiro, a descoberta de um câncer de estômago; para o segundo, a espera de uma guerra nuclear.

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Vivem a morte, ou o que resta da vida. Os outros – filhos, noras, amigos de trabalho, pessoas de passagem – encontram neles figuras deslocadas, ao passo que não enxergam, distantes do ponto de foco, o verdadeiro problema: julgam os protagonistas sem conhecê-los de verdade, presos como estão às suas vidas pequenas e repetitivas.

O fim está ao lado, não exatamente ao centro, diz Akira Kurosawa. Em Viver, o burocrata munido de carimbo, posto na mesma mesa todos os dias, a se repetir por décadas, tem então um choque: a partir do momento que descobre o câncer, descobre a necessidade de escapar. Ou seja, de viver. Sua curta odisseia dura sua vida toda.

Insuficiente por se tratar de uma vida, qualquer que fosse. Esclarecedor observar, contudo, como o valor do homem passa a ser medido pela consciência do fim. Para fora, a vida sem a mesma certeza é ela a própria morte – no sistema que empilha papéis e sufoca pessoas.

Kanji Watanabe (Takashi Shimura), herói em formação, descobre que o fim aguarda em toda e qualquer esquina. Seu retorno ao próprio interior, enquanto anda pela rua sem ouvir o som da cidade, é quebrado pelo barulho do trânsito, momento em que quase é atropelado. Sem rumo, ele sequer consegue enxergar o risco.

O mundo moderno que renasce da guerra – de prédios, trabalhadores engravatados, veículos a toda velocidade – leva Watanabe à rotina da qual agora precisa fugir, ou da qual foge na ausência de escolha. Ao sentir a morte bater no peito, ou no estômago, qual o sentido de seguir trabalhando, carimbando papéis em uma sala fechada?

A pergunta, supõe Kurosawa, deveria ser outra e anterior: qual o sentido de viver para carimbar papéis, em uma sala, na grande cidade que sufoca e mata seus moradores sem que os mesmos percebam? O protagonista de Anatomia do Medo, Kiichi Nakajima (Toshirô Mifune), conduz o espectador a uma questão igualmente relevante: qual o sentido de seguir vivendo em mundo no qual, a qualquer instante, uma bomba pode colocar fim a tudo?

Não estranha que, aos olhos dos outros, esses homens estão em processo de loucura – sobretudo Nakajima, de quem os filhos querem tirar os poderes financeiros, incluindo os de sua fábrica. Ele quer vender seus negócios e, com a família, mudar-se do Japão para o Brasil, para talvez se ver salvo de um desastre nuclear.

Enérgico, inquieto, com alguma frequência a brigar com quem discorda, Nakajima abre espaço ao olhar segundo, o de um dentista que assume importante papel nessa história ao atuar como juiz assistente no tribunal de casos de família. Interpretado justamente por Takashi Shimura, o observador vê no suposto louco alguma razão.

Perto do fim, um funcionário do hospital psiquiátrico lança perguntas que passam pela cabeça do dentista: “Ele é louco? Ou nós somos? Quem pode permanecer inabalado em um mundo maluco? Só os loucos?”. À beira da morte, a loucura. Ao encontro desta também vai o Watanabe de Viver: sem razões para bater o carimbo e fazer o que sempre fez, decide tirar alguns dias ou horas: sai para beber, dançar, curtir a noite com mulheres.

Sua desorientação é refletida no visual, nos inúmeros elementos que Kurosawa leva à tela, além da inclinação dos corpos e da aproximação das faces. O turbilhão da metrópole chega ao homem dado como morto que agora corre atrás da vida, ainda que a corrida inicial seja desajeitada, inconsequente, a bagunça de alguém que quer tudo e nada.

Ao filho que tanto se dedicou e com o qual não consegue mais conversar, ou apenas confessar estar morrendo, Watanabe é visto como enganado, velho homem levado pelos encantos de uma jovem. Talvez vejam nele um velho senil. Nesse encontro com a vida, assim parecerá aquele que, à noite, sozinho, põe-se sobre o balanço do parquinho, criança solitária, ainda assim satisfeita com o grande feito de sua existência.

Kurosawa faz ótimo uso da profundidade de campo em Anatomia do Medo. Outra vez revela o essencial: a vida do protagonista em questão está relacionada a todas aquelas camadas que ultrapassam ou antecedem seu corpo, fundo e frente, filhos e outros parentes que resistem à ideia de se mudar do Japão e deixar a fábrica para trás.

A profundidade de campo, apesar de colocar todos à vista, evoca a dificuldade de coexistência das partes, seres humanos que simplesmente não se encontram, que se evitam a despeito dessa relação de proximidade. Como em Viver, faces ou corpos inteiros dirigem-se a pontos opostos.

Nessa profusão de caminhos, ou de intenções, o fio de consciência tocará a loucura: ajudado pela maneira como se porta, Nakajima não pode ser outra coisa senão insano. Ao homem sem controle, que chega a pôr fogo na própria fábrica para matar seu velho Japão, resta enlouquecer de verdade, ser o que os outros esperam que seja, encontrar seu foguete e fugir. Distante, assiste à “Terra em chamas”, ao sol através da janela.

(Ikiru, Akira Kurosawa, 1952)
(Ikimono no kiroku, Akira Kurosawa, 1955)

Notas:
Viver: ★★★★★⤴
Anatomia do Medo: ★★★★★

Foto do cabeçalho: Viver

Veja também:
Kagemusha, a Sombra de um Samurai, de Akira Kurosawa

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