Jojo Rabbit, de Taika Waititi

Na comédia sobre o nazismo, os inimigos são ridículos e exagerados. Matam por pouco, mentem ou se enganam, mistura de ideologia e ignorância. A todo o momento. O que torna Jojo Rabbit um pouco diferente é a proposta de um amigo imaginário para a criança protagonista: o ditador Adolf Hitler, à forma de Taika Waititi.

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Essa visão é uma boa maneira para entender – na arena da farsa – o poder infantilizador do nazifacismo e de outros regimes totalitários, de líderes convertidos em heróis destemidos e salvadores. Crescer, por isso, é chutar Hitler para fora de casa – para fora da mente.

A massa de crianças no início do filme de Waititi é a massa alemã que se deixa guiar por idiotas, que se submete a treinamentos em camps militarizados e construídos para ensinar táticas de guerra e incutir ideias erradas sobre judeus e outros inimigos. Aqui, como um acampamento de escoteiros de comédias dos anos 1980.

Jojo (Roman Griffin Davis) é fascinado pela farda, pelos heróis nos quais crê e vê desfilar, no Hitler a ele apresentado como seu lado forte, a combater o coelhinho bondoso, torcido, esmagado. O amigo, à cegueira da criança, não soa distorcido. O imaginário prega peças ao menino – à nação – enveredado por peças de ficção.

Do outro lado, os judeus são monstros perigosos, os comunistas comem crianças. O nazifascismo, com seu jogo infantilizador, tranca as crianças – as pessoas – em seus próprios medos, a tremerem com a possibilidade do bicho-papão que salta do armário ou do buraco da parede. O que Jojo não sabe – e o que descobre – é que as paredes e armários servem justamente às vítimas, à realidade: é o esconderijo dos judeus.

Da parede do quarto de sua mãe (Scarlett Johansson) sai uma garota judia (Thomasin McKenzie). Um exagero de simplicidade, beleza, olhar atento que, previsível, captará a atenção e as “borboletas” que se debatem na barriga de Jojo. Menina para apresentá-lo ao real e ao amor, nos dias de convulsão para o garoto que se transfere do mundo infantil das aventuras na selva às ruas em que traidores são enforcados e expostos.

A mãe assegura a fantasia. O garoto precisa descobrir a verdade sobre sua imaginação e seus mitos por si próprio; a maturidade vem, de uma forma ou de outra. Nesse sentido, a mãe apazigua, é otimista quanto ao futuro de seu país: passado o banho de sangue, o povo cairá na real. Exala consciência.

À criança o que é da criança – ainda que a realidade, intrusa, em algum momento consiga interferir. Adultos não precisam de ditadores com respostas fáceis. Crianças precisam de adultos para guiá-los e permití-los chegar às respostas em seus próprios domínios.

A mãe explicará a ausência do pai com um teatro improvisado. Veste a parte superior da farda, passa carvão sobre o rosto e engrossa a voz. A imaginação, ainda que pareça clichê, é a fuga possível nessa comédia que em momentos não faz concessões e, por isso, revela a podridão daquele momento, na Alemanha em guerra.

O chefe nazista do camp dos garotos é interpretado por Sam Rockwell. Na conflito final, após a morte de Hitler e a invasão dos americanos e soviéticos, ele veste um traje napoleônico para celebrar em clima de farsa sua óbvia derrocada. Concretiza-se assim a comédia dos idiotas, embalada pelo delírio de grandeza, sucedida pela bala.

(Idem, Taika Waititi, 2019)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
História de um Casamento, de Noah Baumbach

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