Sorte Cega, de Krzysztof Kieslowski

De passagem, a certa altura de Sorte Cega, uma mulher diz a frase que resume o sentimento das pessoas sob o regime comunista polonês, nos anos 1970 e 1980: “Não precisa ter vergonha. Todos temos medo”. Quem ouve é o protagonista, rapaz que, a cada linha possível dessa história, a cada chegada à estação de trem, encontra um novo destino.

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Os primeiros seis minutos do filme de Krzysztof Kieslowski resumem a vida dessa personagem. Estão ali a primeira imagem de sua vida, no hospital, com o sangue e a dor da mãe; o reflexo no espelho; os ensinamentos do pai; a despedida do amigo; o primeiro amor.

Com a chegada à estação, tudo muda: a essa altura, Witek (Boguslaw Linda) desistiu da faculdade de medicina e viaja à cidade do pai, morto há dez dias. Tomar o trem ou não para Varsóvia pode mudar seu futuro: na primeira linha, ele toma e termina funcionário do partido comunista; na segunda, não consegue tomar, é detido pela polícia e se envolve com o movimento estudantil; na terceira, decide continuar estudando medicina.

Segundo o protagonista, o pai teria pedido para que ele desistisse de ser médico. A morte do outro fez com que perdesse a vocação, ou acreditasse nisso. A cada destino imposto, a cada possibilidade para uma vida, Kieslowski brinda o público com outras possibilidades: eis um filme feito, sobretudo, de detalhes, de pequenos instantes mágicos.

A entrada no sistema burocrático do partido, na primeira linha, faz de Witek alguém preso às convenções, aos engravatados, aos gabinetes de pouca luz; antes, faz dele o ouvinte de um velho desiludido, preso, no passado, por ser considerado um espião – homem simples, grisalho, que teria confessado um crime que não cometeu.

Enquanto se envolve com o partido, Witek aproxima-se de seu primeiro amor. Ao contrário dele, Czuszka (Boguslawa Pawelec) prefere estar entre espíritos livres, estudantes, opostos ao controle do governo sobre as pessoas. Para o protagonista, descobrir o outro lado custará sua viagem à Varsóvia, sem alcançar o trem que já partiu.

O mesmo homem grisalho, no interior do trem, diz que as pessoas às vezes “não querem correr”. A história – ou as histórias – de Witek, por destinos diferentes, leva-o sempre ao amargor, a enfrentar o sistema de homens, aos entraves dos relacionamentos, às oposições das quais não pode escapar. No partido, no movimento revolucionário ou na família, Kieslowski faz dele o mesmo, assegura sua alma e sua forma.

Não há muito no que crer. O rapaz tenta, em vão, desviar-se da política. As mudanças do destino, por Kieslowski, são sempre curiosas, irônicas, fazendo com que a personagem forte seja rendida pelo meio. “Os que nos governam são impotentes”, diz um dos líderes do partido. O membros de dentro reconhecem a própria podridão.

Na cena mais bela do filme, Witek pede que Czuszka conte suas experiências sexuais passadas. Aguenta ouvi-la apenas um pouco, em seguida tapa sua boca. Coloca-a sobre seu corpo, diz que a ama. Estão à frente da parede fria. O contato entre humanos dá outro peso ao filme: para o cineasta, é a matéria essencial. Sorte Cega é sobre o confronto com determinada época e sistema, contra o que não tem forma.

Sem surpresas, eleva sentimentos, tenta se esquivar das paredes frias, da opressão que, não estranha, soa inclusive natural. À época, o fim do regime parecia inevitável. Kieslowski filma o olhar a esse momento derradeiro, lento, a consumir pessoas desesperadas, aos gritos. Pessoas como Witek.

(Przypadek, Krzysztof Kieslowski, 1981/1987)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Rubens Ewald Filho entrevista Krzysztof Kieslowski

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