Oliver!, de Carol Reed

Aos adultos, Fagin não esconde sua monstruosidade. Surge como figura livremente falsa, entre a fumaça, de seu buraco, para se apresentar à personagem-título. Na versão musical da famosa obra de Charles Dickens, as crianças demoram a enxergá-lo como realmente é.

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Mas o Fagin de Ron Moody é ainda mais, ou menos: é, pouco a pouco, estranhamente humanizado. A maquiagem dá vez ao distorcido, ainda assim possível, alguém nascido dos becos, crente de que seu tesouro só será multiplicado à medida que desvia os outros, a começar pela infância. Fagin assusta porque acena à realidade.

Em Oliver!, Carol Reed joga com o inesperado: de um lado, o adulto candidato a Nosferatu, sem vida, e que termina palpável; de outro, o angelical perdido, o qual a maldade não é capaz de tocar, sem ser visto por inteiro. Oliver Twist (Mark Lester) reflete a pureza.

Alguém deverá notá-lo. Alguém de carteira cheia, a mesma que o menino é acusado de roubar. A essa altura, Oliver já fugiu do orfanato, viveu com uma família fabricante de caixões, caiu na estrada e terminou na Londres vitoriana cindida por um trem – ao qual o mesmo terá de curvar para não morrer. Revive da fumaça, para a tranquilidade de todos que queriam prendê-lo e agora torcem por sua vida.

Os adultos estão ocupados com seus banquetes; aos pequenos, a sopa de sempre. Em cômodo à parte, assistidos pelos meninos, empanturram-se com carnes. Não faltam motivos para fugir. Oliver comete um erro, expressa a vontade onde esta é impedida: vai ao guarda imponente e pede mais comida, o que o faz ser colocado na fila de adoção.

Com Fagin, ainda que pouco ou quase nada, Oliver parece ter algo: o vilão é quem lhe ensina a “sobreviver” a essa Londres que, é verdade, não dá trégua. Entre gente adulta e pedaços de carne, Oliver quase é fatiado e servido para morrer como tantos – o que não combinaria em nada com a música e o universo de esperanças em questão.

Os pequenos marginais e mesmo os adultos malvados são suavizados pelas canções. Fagin poderá dar saltinhos para estar com os outros. Em terno verde, cabelo espalhado pela testa como redemoinho, ele confronta a própria sujeira da qual é filho com esse estilo maluco de um submundo que não vê saída senão na vida de crimes.

A fábula moral pede espaço entre as locomotivas que, a simbolizar o progresso, atropelam crianças como Oliver, entre os alimentos que surgem pela rua – nas mãos dos milhares de extras que dançam ou no cesto em que o menino esconde-se em viagem a Londres – e servem de componente ao espetáculo, não para cessar a fome.

Pedir realismo é exagero, claro. Por outro lado, não é difícil pensar nele. “Se não se importar em engolir desaforos, é uma vida boa”, canta Nancy (Shani Wallis), a bela companheira do grandalhão Bill Sikes (Oliver Reed), cria de Fagin e o provável futuro de muitos meninos levados a bater carteiras nas ruas, todos os dias.

A riqueza é ilusória. Por isso, triunfa a criança – outra vez contra a cidade e contra todos que se empenham para descartá-la. Fagin, tão pobre, está cheio de tesouros, peças preciosas que brilham em contraste aos tijolos úmidos nos quais se escora. Acumula enquanto segue ali, paupérrimo, monstro em sua toca. Para Oliver, tem palavras tentadoras: “Se continuar do jeito que começou, você vai ser o maior homem de todos os tempos”.

Conserva-se a infância. Oliver é uma idealização feliz, encantadora, em uma pequena grande história sobre sobreviver aos adultos e seus atalhos, suas palavras mentirosas, às locomotivas e aos facões capazes de cortar um boi ao meio, aos buracos e às falsas promessas.

(Idem, Carol Reed, 1968)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Terceiro Homem: o homem real

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