Carruagens de Fogo, de Hugh Hudson

Falta a Harold Abrahams a facilidade de Eric Liddell. Certo descompromisso. Ambos perseguem algo, colocam-se em estados diferentes: no primeiro, o físico, o treino, a dificuldade de superar falhas; no outro, a entrega a Deus, a explicação para a velocidade no sinal divino, como se para além dessa esfera não houvesse saída.

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Com Liddell, a corrida assume ares de graça, espontaneidade, consequência do que esse mesmo homem entende por fé. Nas ações de Abrahams, em erros ou acertos, só lhe resta despejar culpa ou sucesso em si mesmo. Em Carruagens de Fogo, com alguma discrição, esses homens traçam diferenças, sempre em paralelo.

O elegante filme de Hugh Hudson pode ser interpretado como uma batalha entre o corpo e o espírito, ainda que, ao cético, restem os homens. Em tempo: são pessoas simples, o que deixa ver o principal acerto do cineasta. Em suas disputas, Liddell e Abrahams não são recobertos pela “espera do tempo”, por soluções comuns ao cinema chegado a estátuas gregas, não a homens. Aqui, em oposto, fica alguma secura, os atletas são o que são.

No início, nem um nem outro, mas todos servem à tela como seres míticos: mescla de virilidade e beleza, liberdade de espírito que se traduz no movimento, no rosto de felicidade desses rapazes, ao som de Vangelis. Estado superior, leveza, algo como um voo – ao passo que, com distância, a câmera deixa ver um homem, um menino e um cão assistindo ao espetáculo à beira-mar. Do cotidiano à imortalidade, como pintura.

Motivo para seu voo, Deus será para Liddell também um bloqueio: pelas regras de sua religião, ele não pode fazer nada aos domingos, inclusive correr. Nem o gesto que o Divino concede-lhe, nem a amostra de força que soa sobre-humana, será aceita nesse dia de descanso, justamente um domingo de competições olímpicas.

Ao mirar na aura religiosa, como se fosse a memória dos homens que viram Liddell e Abrahams correrem antes e durante as Olimpíadas de 1924, em Paris, Carruagens de Fogo assume tons de uma época perdida, e que talvez nunca tenha existido. Hudson luta contra os excessos. O mundano encontra o quadro idealizado.

Em momentos, a câmera vaga como se flutuasse, a imagem fica torta. Em Cambridge, os reitores assistem à pureza e superação de seus garotos loiros. Não aceitarão, à frente, o fato de Abrahams contratar um técnico (Ian Holm) de descendência árabe. Soa como provocação aos britânicos “puro sangue”, no alto de suas catedrais.

Judeu, Abrahams louva o irmão médico, o pai batalhador, as experiências do homem que desembocam em sua determinação para chegar às Olimpíadas. Seu oponente, Liddell, vive um dilema: participar da competição e dar mais espaço a esse jogo de homens ou embarcar em missão religiosa em algum canto remoto do globo.

Ben Cross dá vida ao primeiro. É quadriculado, tem os ossos à mostra, silencia ao revelar o desejo por uma mulher ou sofrer com a derrota. O homem tão cheio de si de repente desaba. Do olhar profundo vem a tristeza inexplicável. No caso de Liddell, interpretado por Ian Charleson, as marcas da imperfeição física, falhas da pele, dão espaço ao interior, por consequência à única barreira intransponível e inevitável: Deus.

(Chariots of Fire, Hugh Hudson, 1981)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
A Missão, de Roland Joffé

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