Retrato de uma Jovem em Chamas, de Céline Sciamma

Olhar a amada é condená-la ao casamento – por isso perdê-la. Olhar para pintá-la, para achar detalhes, das mãos aos traços da face, à espera de seu sorriso. A outra, tão fechada, não sabe que serve de modelo a um quadro, objeto que será dado a seu futuro marido, um milanês que nunca viu, a quem interessa primeiro a imagem.

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A pintora termina apaixonada por sua modelo. Olhar, nesse caso, não é apenas perder ou condenar, mas perceber a natureza do artista: é preciso seguir pintando, doa a quem doer. Constatação semelhante à da modelo sobre a tragédia de Orfeu, que olhou para Eurídice – e a condenou ao inferno – como poeta, não como amante.

Em Retrato de uma Jovem em Chamas, Marianne (Noémie Merlant) é contratada para fazer o quadro de Héloïse (Adèle Haenel), prendê-la aos limites da borda, fixá-la à tinta sobre o tecido. Destino dúbio à moça que não quer ser pintada, que queria continuar em um convento: deixar-se possuir pela amada, deixar-se levar ao matrimônio arranjado.

O olhar comporta tudo: a condenação ao inferno (o casamento), a necessidade amorosa (ter a outra). Em jogo, sobretudo, o destino de quem observa, mais que o destino de quem é observada. Ao descobrir ser o molde à pintura, Héloïse não gosta do que vê na tela e aceita posar para Marianne durante alguns dias, quando elas finalmente consomem o sexo.

O filme de Céline Sciamma constrói a relação entre ambas à base de silêncios, palavras não ditas, ocultas sob outras, aproximações pelo olhar que pretendem captar a forma ou, no caso de Héloïse, constatar os motivos de sua própria prisão: à mulher que ama alguém do mesmo sexo não resta muito além do convento e do casamento arranjado.

Marianne vem de lugar algum, do oceano. Em pequeno barco, vê-se obrigada a se lançar às águas para salvar os quadros brancos, matéria para seu trabalho. É sua essência – a necessidade de preenchimento – que está em jogo, a ser engolida pelas águas, natureza indiferente, enquanto os homens apenas esperam.

Nos dias que dividem, as mulheres flutuam sobre o inferno, livres mas nem tanto, à espera do retorno da mãe da modelo, do término da obra de arte convertida em cartão de visitas. O som do fogo, pelos estalos, indica o que se desfaz, consumido, aos poucos desaparecendo – dá, em efeito singelo, a condição dessas personagens isoladas.

Não bastasse o fogo no quadro – primeiro na altura do coração, depois por todo o objeto -, vem o fogo que, a certa altura, cinde a tela do filme e atinge o vestido de Héloïse. Por alguns segundos, sempre com olhar fixo, ela aceita o risco, deixa-se queimar, como se reconhecesse a condição de algo frágil, condenado, feito mesmo às cinzas.

As mulheres ainda resistem. A criada da casa, Sophie (Luàna Bajrami), está grávida e conta com a ajuda das amantes para abortar. Sua imagem – deitada, pernas abertas para outra mulher – será reconstituída para servir à pintura de Marianne, resposta da arte à mesma arte usada antes como catálogo de venda. O olhar guia-se agora à resistência das mulheres que escolhem – não todas, mas algumas – o que fazer com o próprio corpo.

A fotografia de Claire Mathon reproduz a sensação de leve abrasamento, a começar pelos rostos erigidos à luz de velas, em tons um pouco amarelados. O calor dá vez a um quadro triste, a figuras presas à antiguidade. Para fora da casa, as mulheres encontram o brilho à beira das rochas, próximas da caverna, à espera de algo que não chega.

A pintora termina com duas imagens de sua amada. Na primeira, tem-se o quadro da outra de mãos dadas com uma criança, além de empunhar um livro importante; na segunda, a pessoa real – distante, vista enquanto assiste à ópera e chora. Em um caso, a pintura olha nos olhos, encara; em outro, a pessoa verdadeira não corresponde, não oferece a troca. Nos dois, arte ou vida, o olhar é condenado a não ser correspondido.

(Portrait de la jeune fille en feu, Céline Sciamma, 2019)

Nota: ★★★★☆

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