Preso na Escuridão, de Alejandro Amenábar

Dada a importância da beleza, o homem recorre ao sonho. Dada a ausência de Deus, recorre às máquinas. Quer ser belo para sempre. Quer viver para sempre. A ciência, por isso, pede passagem em Preso na Escuridão. Enquanto o futuro não vem, Alejandro Amenábar mostra a saída a seu protagonista desfigurado: melhor viver ou morrer sonhando.

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A ausência da beleza – também a do divino – será então minimizada pelo sonho e por suas projeções internas, pela vida perfeita que, a exemplo do rosto, desfigura-se para desfraldar o inconsciente. Nem no sonho – muito menos nele – o protagonista terá uma vida feliz, a beleza e a mulher que ama ao lado.

Fica a impressão de que paga justamente por ser belo e rico, um playboy. Por dormir todos os dias com uma mulher diferente. Até o momento em que encontra as mulheres opostas, os arquétipos com os quais precisa duelar – para servir ao amor (que não reconhecia) e à morte (que ignorava, sobretudo ao olhar ao espelho e não enxergá-la).

César (Eduardo Noriega) conhece Sofia (Penélope Cruz) por intermédio do melhor amigo, também seu oposto, o pacato Pelayo (Fele Martínez). Na mesma festa, espera-o no quarto, de surpresa, a dama fatal, a representação da mulher bela mas indesejada, sexualmente atraente mas dominadora demais: Nuria (Najwa Nimri).

A máscara fortifica o protagonista, depois o destroça. A primeira revela o conquistador que não mede esforços para ter a mulher que deseja, mesmo quando esta chega pelo melhor amigo. Nos sonhos, sob a influência do inconsciente, a amada e a dama fatal passam a duelar, cada uma a ocupar a posição da companheira, trocando os papéis.

Antes da vida, o sonho: na abertura, César vê-se desesperado ao vagar sozinho pela cidade grande. Não há mais ninguém por ali. Nada mais desesperador para alguém que projeta algo, que se sustenta à máscara, que precisa ser visto. Na vida, depois, encontra-se o oposto: desfigurado, despido, ele está em uma discoteca entre todos e entre ninguém.

É a dama fatal que o leva ao precipício, justo no dia seguinte à noite na companhia da nova amada. Depois de seguí-lo, Nuria convida o rapaz para uma volta. Convence-o a entrar no seu carro ao sugerir que ele tem medo. A corrida termina com a queda, o desejo dela em se matar ao lado dele, que termina deformado, como em O Fantasma da Ópera.

A voz feminina convida o protagonista a acordar. “Abra seus olhos”, diz na abertura, depois no encerramento. Abrir os olhos é encarar a si mesmo, ver no espelho a forma supostamente verdadeira contra a forma projetada pelo ego. Quer dizer, não se existe pelo que se é, mas pelo que se projeta, pelo molde que se impõe.

Levada à posição de monstro, César precisa viver com nova máscara: não conseguirá mais seduzir a mulher que ama, nem qualquer mulher. Não poderá mais encontrar o caminho que o fazia inclinar ao espelho, ao mesmo tempo o fortificando, ao mesmo tempo o fazendo pronto para a vida lá fora. Era o mais belo, alguém que vivia para conquistar.

Pobre menino rico que precisa de sua velha máscara para viver, do mito da eterna beleza. Sem ela, sem o que fazer, apelará ao sono, ao sonho. Narciso que agora reconhece enganar a si mesmo, e pagará para isso. Ao aceitar esperar pelo futuro na esperança de recuperar o rosto que, para ele, faz-se essência, César vive para sua própria máscara.

O sonho leva à profusão de faces, aos diferentes espelhos, às confusões que tanto explicam. Como diz alguém, a certa altura, o inconsciente prega peças. Não há sonho perfeito quando a essência – mais que a face – está fraturada. Pelo sonho, Sofia retorna como Nuria, Nuria como Sofia. Revela o protagonista: no fundo, a mulher que o mata é a mulher que deseja ter, de tamanha força que o fez torná-la uma entre tantas conquistas de ocasião.

O futuro incerto promete cápsulas de congelamento. A ideia é preservar a matéria para ressuscitar e viver para sempre. Enquanto aguarda, César sonha. Ao descobrir a farsa que corre em seu próprio interior, prende-se em outra cápsula, em nova máscara, disposto a encontrar a porta de saída que talvez lhe devolva o reflexo ideal.

(Abre los ojos, Alejandro Amenábar, 1997)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Mal do Século, de Todd Haynes

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