Provincianismo e fascismo, segundo Federico Fellini

Os trechos abaixo estão no livro Fellini Visionário (Companhia das Letras; pgs. 282 e 283), que, além de trazer roteiros e artigos, destaca entrevistas dadas pelo cineasta Federico Fellini a diferentes veículos de comunicação, durante a produção e o lançamento de Amarcord, em 1973.

Farei um filme ao mesmo tempo cômico e trágico, que seja indiretamente um retrato da sociedade italiana, da Itália mais pobre e atrasada. A cidadezinha que eu inventei representa a eterna província da alma, o lugar em que a ausência da cultura faz a ligação entre todos os defeitos coletivos. O provincianismo crê na autoridade e a busca; deseja para si a figura do protetor, o pai, a Igreja, o partido, o ministro. O provinciano nunca cresce, sua ambição é permanecer na infantilidade. Uma posição como essa possui, com certeza, algo de tentador, e é difícil abandoná-la. Eu disse com razão que seria um filme ao mesmo tempo cômico e doloroso.

Trecho de entrevista a Stefano Reggiani em La Stampa (24 de junho de 1973).

Não se deve encarar o fascismo com uma certa pretensão de direito, ou seja, de fora, como acontece na maioria dos filmes políticos hoje em dia. Julgamentos distanciados, diagnósticos assépticos, fórmulas sintéticas e cabais me parecem (ao menos por parte da geração à qual pertenço) sempre pouco humanas demais. A província de Amarcord é uma província na qual todos nós – sobretudo o autor – precisamos reconhecer a nós mesmos na ignorância que nos ofuscou – uma grande ignorância e confusão de conceitos. Não que eu queira minimizar as causas sociais e econômicas do fascismo; quero apenas dizer que ainda hoje o que mais interessa nesse sistema é o traço emocional e psicológico da adesão a ele. Em que consiste esse traço? Em um certo bloqueio, uma paralisação no início da adolescência e, na minha opinião, um congelamento e uma interrupção do desenvolvimento de um indivíduo levam necessariamente a alterações que procurem compensá-los. Talvez dessa maneira o fascismo se torne para alguns uma alternativa diante da perda de todas as ilusões, algo como uma tentadora reação da ruptura de todos os obstáculos no instante em que o crescimento se orienta numa direção que leva a um sentimento de decepção e desorientação.

 

(…) tenho a impressão de que fascismo e adolescência ainda são, de uma certa maneira, estágios da nossa existência [a italiana] – a adolescência, da vida pessoal, e o fascismo, da vida nacional. Refiro-me com isso à forma de se permanecer para sempre uma criança, de se livrar da responsabilidade, de viver com o consolo de sempre ter alguém a quem cabe pensar, uma vez é a mãe, outra o pai, mais tarde o Duce. (…) E acho que a Igreja católica tem mais culpa que o fascismo por esta falha crônica do amadurecimento, por esta permanência num estágio infantil. Como todos eles vivem nesta espécie de redoma, ninguém forma traços individuais característicos, mas apenas anomalias patológicas.

Trecho de entrevista a Valério Riva em L’Espresso (7 de outubro de 1973).

Acima e abaixo, diferentes momentos de Amarcord em que Fellini mostra representações do fascismo em uma pequena cidade italiana.

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