Algumas memórias de Fellini

Às vezes, revendo por acaso, porque não revejo meus filmes, acabei vendo uma imagem, ou um trecho na televisão, de Casanova ou Satyricon, e muito freqüentemente me vem do nada a pergunta “Quem fez isso?”. No momento em que começo a filmar, que passo a ser o cineasta, não sou mais eu, é um invasor misterioso, um invasor que eu não conheço, que faz as coisas. Ele dirige tudo para mim. Eu só coloco minha voz à disposição dele e meu conhecimento, minhas tentativas de ser sedutor, ou de ser plagiador, ou de ser autoritário. É um outro que filma, um outro com quem convivo, mas que não conheço, não diretamente, só o conheço superficialmente.

 

Desde a infância, sinto uma atração confusa por personagens assim, na vila onde eu nasci, que são considerados extravagantes e mal vistos. Quer dizer, os artistas. Eu era fascinado pelo fato de que eles não iam ao cabeleireiro e podiam ter cabelo comprido, que raramente lavavam, e tinham unhas sujas e ninguém dizia isso a eles. Usavam roupas brilhantes e frequentemente eram visto caminhando de braços com moças muito bonitas. Eles queriam o que queriam e faziam suas próprias refeições em seus estúdios. E eu os admirava porque eles eram todos como canalhas, vagabundos. Eu nunca pensei quando era menino que eu me tornaria um diretor. Eu estava muito confuso. Eu sabia que nunca seria um médico, que era o que meu pai queria, ou um cardeal, que era o que a minha mãe queria. Eu a decepcionei.

 

Quando não estou no estúdio – longe das luzes do set, onde sonhos e fantasias se tornam realidade, sem atores para atuar -, quando desistir de dar ordens, e uma vez que não estava imerso na atmosfera que prevalece no set de filmagem, eu sinto um pouco de vazio, como se estivesse no exílio. Tudo poderia acontecer: sinto-me muito incapaz de lutar com o que eles chamam de uma existência normal.

 

O que me fascinava era o sentimento de rebelião. Um menino é naturalmente rebelde. Ele está reagindo às leis, aos tabus, às regras impostas pela família, pela escola. E a minha geração enfrentava muitos tabus com a Igreja Católica, com o fascismo.

 

A memória é um elemento misterioso, quase indefinido, que nos liga às coisas que nem lembramos de ter vivido. Mas ela constantemente nos incita a manter contato com as dimensões, com eventos, sensações que não podemos definir, mas que sabemos que aconteceram. Eu sempre tive uma tendência natural de inventar para mim mesmo uma juventude, uma relação com minha família, com uma mulher, com a vida. Estou sempre inventando. Para mim, são mais reais as coisas que eu inventei. Por exemplo, minha cidade natal. A cidade real de Rimini, onde eu cresci e fui à escola, está quase desaparecendo e cedendo o lugar para Rimini, a cidade que descrevi com grandes detalhes em meus dois filmes, As Boas Vidas e Amarcord. Eu agora percebo que as duas reconstruções cinematográficas de Rimini que eu refiz completamente pertencem muito mais à minha vida do que a cidade real de Rimini, do que a versão topograficamente precisa da cidade pequena na costa Adriática. Ou seja: eu sou um grande mentiroso.

 

Como eu reconheço o que pertence à parte mais verdadeira de mim? Francamente, não sei. Parece que reconheço uma certa continuidade, no sentimento de expectativa. Não me vejo como se fosse um touro teimoso correndo mais em uma direção do que na outra. As coisas aconteceram de maneira bem natural. E eu as aproveitei bem. Eu as vivi, fiz coisas com elas muito naturalmente, como se tudo fosse já predeterminado. O mesmo pode ser dito dos meus filmes. Eu nunca decidi fazer um filme mais que o outro. Era como se, me perdoe por esta comparação ridícula, como se eu fosse um trem e as estações fossem filmes. É como se eles estivessem maduros e prontos para serem colhidos. Como se eles já tivessem sido feitos. Casei-me com uma mulher honesta [Giulietta Masina], com alguém como eu. Encontrei aqueles amigos que eu precisava no momento oportuno. E hoje, para mim, parece que tive uma sorte peculiar não por ter oposição ou ter errado, mas por ter reconhecido a pessoa que naquele exato momento queria mesmo me ajudar. E por não ter duvidado demais sobre essa oportunidade ou amizade, e por ter confiado nela.

 

Um filme é muito complexo de se fazer e exige muito tempo, mas na verdade pode existir em uma sensação, em uma intuição, em uma premonição, pode vir de um facho de luz, um som. É aquele velho papo sobre uma obra de arte que se preanuncia ao seu autor, até mesmo por um perfume. A vida toda pode ser sugerida para uma criatura sem vida que deseja viver. Ela pode ser sugerida por uma folha que se agita.

Federico Fellini, cineasta, em depoimento ao documentário Fellini: Eu Sou Um Grande Mentiroso, de Damian Pettigrew (2002; lançado no Brasil nos extras do DVD de Os Palhaços; Dreamland Filmes). Abaixo, Fellini no documentário de Pettigrew.

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