O Brasil real está distante da inocência de Star Wars

À primeira vista não há nada em comum. Nem em tamanho, forma ou pretensão. Um é documentário, o outro é ficção robusta. Um foi lançado em uma plataforma de streaming (o vilão do velho mercado das salas de cinema), o outro de modo convencional, como arrasa-quarteirão (o mocinho do mercado de salas).

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Democracia em Vertigem, de Petra Costa, e Star Wars: A Ascensão Skywalker, de J.J. Abrams, são filmes sobre o bem contra o mal, de vilões e mocinhos escancarados – apesar de tudo o que os afasta. Cada um com uma finalidade clara, ambos se nutrem do olhar inocente, evocado por garotas no centro de duas batalhas.

No primeiro, a realizadora é a própria personagem eleita, o olhar ao país em convulsão, ao que considera um golpe na democracia. Com narração sempre em mesmo tom, ela põe-se no centro da história: muitos são os momentos em que seus sentimentos e sua vida chegam ao Brasil, ao seu país, da redemocratização à queda de Dilma Rousseff.

A autora que se faz personagem tem algo a seu favor: ao colocar em jogo sua ótica para explicar os acontecimentos recentes de uma nação, tem como escudo o próprio posicionamento, o ar melancólico da voz, como se dissesse (sem dizer) que os incomodados – incluindo os detratores – aqui só tem a sua versão para os fatos.

Daí o olhar inocente, que não procura a contradição. E ainda que aponte os erros do Partido dos Trabalhadores, a imagem de seus líderes – presos, depostos – é sempre convocada com ternura. À presidente que sofre impeachment soma-se a visita da mãe, também presa durante a Ditadura Militar. Petra não esconde o afago, seu sentimento pela esquerda.

O show de horrores é evidente. O que viria depois, com o avanço da extrema direita, simboliza o atraso. Ainda assim, resta o jogo de interesses do universo político viciado que o olhar inocente de Petra – a menina em cena, na adolescência, feliz por votar pela primeira vez em 2002 – aborda sem aprofundamento, em nome de um lado.

A eficiência do documentário está justamente nessa ode à interpretação de alguém que ousou sonhar com um país melhor, sob a voz de alguém que, pela abordagem, apenas se finge adulta. Ao contrário da heroína de Star Wars, a de Democracia em Vertigem já sabe o que se passou, vem para narrar a vitória do Império sobre os Rebeldes.

Ambas as heroínas reconhecem o inimigo a ser combatido. Protagonistas, elas preferem a beleza discreta, a salientar inocência. Na pele da jedi Rey, Daisy Ridley usa um traje quadrado de faixas brancas e em momentos soa masculina; em sua cruzada por Brasília ou em vídeos antigos, Petra evita estar à frente da câmera.

A luta contra o Império é o que move a menina sonhadora em um documentário que toma contornos de ficção, com monstros políticos em cenas e frases ridículas, de um Brasil como mundo paralelo, outro planeta. O show de horrores promovido por políticos e manifestantes faz os alienígenas dançantes de Star Wars parecerem comportados.

Petra e Rey têm elos com o Império. A primeira é de família de empreiteiros, a segunda é neta de um poderoso vilão. Como na árvore genealógica da história criada por George Lucas, levada ao cinema pela primeira vez em 1977, as ligações brasileiras entre esquerda e direita são constantes. Há quem escolha mudar de lado, rebelar-se.

Com pais e mães espirituais ao lado – Leia ou Luke, Lula ou Dilma -, as jovens inocentes esculpem suas próprias narrativas para explicar o mundo que habitam e conflito que vivem ou que viveram. Precisam voltar ao passado, encarar as raízes. Diferente de Rey, Petra não pode vencer o que elege como mal. Sua voz – entre desânimo e perplexidade – é a de alguém que perdeu. Suas escolhas, as de alguém que ainda precisa amadurecer.

Para a infelicidade de Petra – e para a constatação do espectador adulto -, o Brasil real está distante do enredo de Star Wars.

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