Van Gogh – Vida e Obra de um Gênio, de Robert Altman

Segundo Vincent van Gogh, Deus está em todo lugar – exceto na igreja e em sua família. Em revolta, ele dispensa o Divino, apoia-se na arte, enlouquece à medida que se expressa pela própria loucura – seja na faca que leva à garganta de Paul Gauguin, seja no confronto estranho contra os girassóis, em tarde como outra qualquer, enquanto pintava.

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Seu irmão, em Paris, é outro: em Van Gogh – Vida e Obra de um Gênio, ele luta para não entrar em confrontos, para ter a chamada vida comum. Veste o bom terno que acompanha seus dias de venda, encampa o jeito educado que transpassa aos clientes, tem ao lado a bela mulher para casar, logo a filha que acompanha o casal.

Para Theo, o confronto é o passe para a perda, ainda que, como Vincent, sua natureza esconda algo destrutivo. Para o gênio pintor, não enlouquecer talvez signifique o contrário: é viver de mãos atadas à mediocridade dessa terra em que Deus não está nos cantos mais esperados, justamente aos quais os homens correm para Lhe prestar reverência.

O título brasileiro para o filme de Robert Altman erra feio: o filme vai além de Vincent, é também sobre Theo, que finge (e se esconde na) sanidade. Homem moderno que sugere a mentira, a possível existência de um Deus para abençoar sua família e, tão belo, não combina com o irmão artista.

Vincent (Tim Roth) pode ser quem deseja ser: seu suicídio, na ótica de Altman, à contramão do irmão certinho, torna-o alguém autêntico; do outro não se espera o mesmo, a quem a exposição das dores revela-se apenas com a morte do pintor: a destruição pelo apodrecimento, a abolição da vestimenta, a entrega à sujeira.

Altman toma os extremos para aproximá-los, o que faz de sua história, a partir do roteiro de Julian Mitchell, uma peça original sobre um pintor – ou parte sobre ele – tantas vezes levado à tela do cinema. Passa da malícia que lhe é comum à austeridade, ao controle, ao material sólido e sério, à história dos irmãos Van Gogh em vidas opostas.

Theo (Paul Rhys) custeia Vincent. Suas mesadas ajudam o outro a viver do pouco que a pintura oferece-lhe. O primeiro sofre por não conseguir vender seus quadros, e por vender aquilo que não gosta. O tempo encarrega-se da mudança: na abertura, o espectador é colocado em tempo recente, em leilão no qual os quadros custam milhões.

O pintor louro e perturbado não viveu para ver suas telas fazerem fortuna. Theo tampouco. A montagem paralela que abre a obra de Altman mais parece um jogo baixo, contraste desnecessário, felizmente superado pelas navegações da câmera na busca dos homens ao centro, na amostra de suas relações com as mulheres.

Vincent, primeiro, no contato com uma prostituta grávida. A sequência é belíssima: Altman despe-a da beleza natural, torna-a corriqueira, permite que se movimente aos olhos do pintor. Não faz nada além do trivial, em noite chuvosa: dirige-se ao penico e urina enquanto é assistida por Vincent, fascinado pelo gesto comum.

O artista será visto na companhia dessa mulher e sua filha. Com a roupa suja de tinta, tela às costas, pincéis com frequência levados à boca, não vive para satisfazer as exigências das pessoas, e escolhe a excluída para estar ao seu lado, talvez para desenvolver o afeto incomum ao seu universo restrito.

Theo diz que ama. Seu meio é mais limpo, sua língua sobre o corpo da companheira traz delicadeza, ainda distante do ato sexual. A força destrutiva de Vincent assusta o irmão aparentemente pacato. Sua morte confirmará que até os mais fortes podem renunciar à vida conferida por um certo Deus. Justamente os mais fortes.

(Vincent & Theo, Robert Altman, 1990)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Com Amor, Van Gogh, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman

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