Atlantique, de Mati Diop

O mar é constante. A câmera revela sua imensidão, seus movimentos, enquanto reflete a luz do sol. Quase dourado. Do lado da terra não há verde. Resta um deserto cravado por arquiteturas sem planejamento, areia pelo ar, gente pela rua, trens e um prédio gigante e espelhado no qual o espectador não será convidado a entrar.

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O cenário de Atlantique é fundamental para sentir o drama da protagonista, a inocente Ada (Mame Bineta Sane), apaixonada por um jovem operário, prometida em casamento a um rapaz rico que visita seu país poucas vezes ao ano. Para ela, o espaço está fechado entre a vastidão do oceano e os labirintos do lado da cidade.

Para Ada, ainda é preciso encontrar a própria identidade: ao longo dessa história, seu namorado perderá a vida no mar, seu casamento será frustrado por um quarto de núpcias em chamas e sua família duvidará de sua virgindade. Depois de tudo ela ainda não se reconhece, ainda se vê perdida, sem o equilíbrio entre o espírito e a carne.

Em fugas noturnas, a moça vai a um bar à beira da praia onde espera o amado que não volta, banhada a luzes em pequenos pontos, chuva de partículas verdes para se deixar levar e, como sob o efeito de uma droga, transcender, tocar o mundo dos fantasmas que, de assalto, toma o primeiro longa-metragem da diretora Mati Diop.

O que poderia ser outro filme sobre amor perdido e casamento infeliz dá lugar a uma obra sobre a mulher contra a sociedade patriarcal, violenta e servida ao capitalismo predatório. Nesse deserto cercado, nesse paredão de água, Ada recebe o espírito do homem que ama. Outras mulheres também recebem os espíritos dos companheiros.

A exemplo do namorado da protagonista, outros operários perderam suas vidas no mar. Sem pagamento, tiveram de se lançar às águas para tentar chegar à Europa. Os homens seguem à batalha, as mulheres ficam e vivem para esperá-los. 

Diop não diminui suas personagens femininas e propõe a união entre amantes ao mirar o misticismo: não é sobre espíritos que tomam o corpo de mulheres, mas sobre mulheres que assumem o papel dos homens e ganham poder, moças que saem à rua no meio da noite, invadem a casa do patrão e cobram a dívida dos mortos.

Fantasmas e mulheres são um só – um pouco robóticos, de olhos brancos esbugalhados. Ao lado, o suspense é regado a sons da natureza: as ondas que se quebram, os insetos entre a mata, as folhas que se batem. Um suspense atento tanto ao sobrenatural quanto ao físico e, em algum momento, como nos filmes do brasileiro Kleber Mendonça Filho, produz a crítica social: aos exploradores vivos ainda existe o fantasma dos explorados.

O que amedronta é o físico, mais que o místico. A ideia de que a justiça pode ser feita por interferência dos mortos – aplicada ao mundo dos vivos. Ainda mais perigoso ao olhar explorador é a consciência de força que mulheres como Ada, em dado momento, descobrem possuir. Podem encarar o espelho e assumir o próprio nome. Encontram identidade.

(Idem, Mati Diop, 2019)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
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