A Vida Invisível, de Karim Aïnouz

Distantes em boa parte do filme, as irmãs Guida e Eurídice completam-se. São diferentes à primeira vista: uma é agitada, às vezes louquinha, diz o que vem à mente; a outra cala, aceita com dor a vida que tem pela frente, inevitável, e prefere falar – ou seria gritar? – com o toque do piano, a música, sua arte. É quando se torna invisível.

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Ao marido idiota e pequeno, em A Vida Invisível, o sentido de seu desaparecimento nunca será compreendido. Ao homem ao qual Gregório Duvivier dá a exata forma do babaca, compreender tal apagamento seria pedir, por algum instante, a projeção ao corpo feminino, para compreender o que uma mulher sente. E não apenas Eurídice.

Seria pedir o mesmo, por extensão, a todos os outros – maridos, pais, irmãos – que não podem compreender uma certa condição feminina que por anos perdurou – a fundo ou em seu nível mais raso. É como se Karim Aïnouz dissesse – com seus retornos à mulher, com essa exposição de força e sensibilidade, do mundo delas como ele é – que nenhum homem, babaca ou consciente, consegue ser o que elas são, sentir o que sentem.

Por décadas, duas irmãs são separadas após uma delas arrumar um namorado grego, viajar e voltar grávida – e sozinha. É expulsa de casa pelos pais. Em sequências paralelas, elas unem-se – mais do que por diferenças ou semelhanças – pelo sexo em comum, pelo laço de sangue e por diferentes maneiras de confrontar os homens ao redor.

O filme escancara a distância entre sexos, o que não quer dizer que não possam conviver. A partir da obra de Martha Batalha, Aïnouz compõe o espaço no qual quase sempre só basta observar, ou sentir, o que dizem aqueles rostos, o que os corpos clamam, o que as palavras em carta carregam anos a fio: a necessidade de aproximação, de mulher a mulher.

Mais que distância, fala de uma zona difícil de dividir, da sociedade machista em que os homens acreditam – coitados – em uma linha que apenas precisam ultrapassar para achar a mulher “ideal”, dama obediente à espera do marido, a cada fim de dia, pronta para o sexo que ele – com frequência um estranho – deseja arrancar em ato selvagem, abrupto.

Chega-se então ao espaço borrado, à confusão que o talentoso Aïnouz consegue captar: as cores do mundo feminino que não se dobra a homens de poucos tons, mentes estreitas, feitos à cultura do macho que tudo pode (ou crê poder). A câmera, para essas mulheres, literalmente borra; seus corpos desintegram-se em aparente lentidão.

Ao controlar o gozo do companheiro e fazer com que não ejacule em seu interior, Guida (Julia Stockler) diferencia-se de Eurídice (Carol Duarte). O gozo do homem depende de seu toque, de seu “tempo”. Com a segunda dá-se o oposto: a moça serve apenas ao marido, para pegar e possuir, até que o mesmo encontre o canal para depositar seu sêmen.

Eurídice estranha o que os outros chamavam de sexo. Descobre-o na noite de núpcias. Vê-se em ato desajeitado, de dor, em que não há prazer, mas apenas movimentos intermináveis. Seu estranhamento, segundo Aïnouz, não está na impossibilidade de gostar, mas na percepção de que se converteu em objeto a serviço de uma determinada mecânica.

À mulher presa, rumo à vida medíocre, aquele tipo de sexo é o que convêm para aqui se falar em representação: é apenas “tirar e pôr”, “dentro e fora”, um pouco como essa vida que não chega a lugar algum, a ser vivida com o físico, para se voltar ao mesmo ponto. O que explica a necessidade de Guida por Eurídice, também o contrário.

As encaradas no encerramento, com câmera subjetiva, dão ideia da importância de uma para a outra, antes de se perderem pela floresta à beira-mar. O resumo do filme está nessa sequência: enquanto uma chama pela outra, ficam cada vez mais distantes, logo estão separadas. O que vem em seguida são vidas diferentes, invisíveis ou não.

(Idem, Karim Aïnouz, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Bacurau, de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho

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