Rosetta, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

A personagem-título quer um trabalho e, em suas palavras, “uma vida normal”. Ter o primeiro, crê ela, é o passo para se ter a segunda – ainda que seja necessário cometer alguns crimes ao longo dessa jornada. O sistema exige o que lhe entrega Rosetta, menina de expressão fechada, de natureza triste: jogar baixo, trapacear, matar se preciso.

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Ao mesmo tempo dentro, ao mesmo tempo fora – ou em zona de transição. Nem totalmente na cidade, pois vive em um acampamento de trailers. Nem totalmente no campo, pois precisa pagar pelo gás e pela água, como no mundo urbano. A parede que a separa do pior, nesse pequeno espaço que chama de casa, é frágil demais.

Rosetta serve-se dessa fragilidade. O realismo explode, é cortante. Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne invadem a intimidade da menina (Émilie Dequenne) sem nunca dizer quem ela é, sem explorar seu passado. A câmera não julga. Os cineastas preferem seu movimento, uma obra sobre tropeços e quedas, sobre estar no mundo.

Cinema que se aproxima demais da face, ou da nuca, ou da pele, do tecido que carrega, do olhar fixo ao outro lado da rua, como se expusesse ao espectador apenas um canal, um túnel frio. O mundo ao redor nunca se abre demais. Os Dardenne fogem às regras da decupagem clássica: excluem planos de estabelecimento e planos gerais, não permitem que o universo ao redor seja mais importante que as pessoas que o percorrem.

Desse relação vem o aprisionamento das personagens, ou da personagem. A estética é pautada pelos tremores do passo – às vezes mais, às vezes menos. Pelo eterno retorno, pela espera. Salta-se pouco no tempo, vive-se o instante. Cinema maior que se forja pela ação do momento, pela repetição, pela defasagem do extraordinário.

Rosetta tem mãe, não tem pai. É uma das várias pessoas que vivem à margem e lutam para se incluir. Sua repetição incomoda: sai atrás de emprego, gira em falso, entra em disputa com chefes, gerentes ou com outros que lhe roubam a posição de dignidade. Volta para o campo, atravessa a cerca de arame que teve de cortar, pesca seu alimento de águas escuras com uma garrafa, a armadilha que aprendeu a usar para sobreviver.

Não chega à completa miséria, nem aos dias ensolarados. Não tem para si uma música como ponte ao drama, a conduzir o espectador à possível descarga de emoção. Não fornece alívio, o que explica, de novo, a opção pelo movimento e a aparente repetição.

Um meio caótico ergue-se sob a falsa aparência de ordem, “as coisas como são” em um sistema que finge lealdade, meritocracia, em pequenas explorações das quais vivem os mais fortes, donos de pequenos ou grandes comércios, a cadeia que se move aos olhos de Rosetta sem que seja capaz de vê-la por completo, alienada como está.

Quer apenas o trabalho, e talvez nem seja pelo dinheiro. Quer seu passaporte ao prometido bem-estar social de seu continente, alimentando a mesma engrenagem de moer gente como ela. Humanos como peças, estruturas de repetição, no vai e vem sem-fim ao qual o filme leva seu público. Poucas vezes se viu realismo semelhante na tela.

Em sua jornada, Rosetta será capaz de roubar o emprego da única pessoa (Fabrizio Rongione) que se importa com ela, e quase a deixa morrer afogada. A protagonista está intoxicada demais pelos efeitos dessa sociedade e, sem que ninguém a ensine, sabe como aplicar rasteiras para transpor posições. Com cólicas que a fazem se contorcer, em constante busca por abrigo, Rosetta é consequência, não a causa desse sistema perverso.

(Idem, Jean-Pierre e Luc Dardenne, 1999)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Os 20 melhores filmes de 1999

3 comentários sobre “Rosetta, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

  1. Gostei muito do filme.

    Pra quem se encontra em uma situação parecida, a identificação é incrivelmente forte e tocante, especialmente na cena em que ela se encontra deitada, tentando se convencer de que, com um emprego, ela seria, então, uma “pessoa normal”.

    Em uma sociedade de mercado, estar numa situação de desemprego, ou subemprego, infelizmente tem consequências até piores que a restrição financeira. O efeito psicológico é devastador.

    Os franceses historicamente têm uma compreensão aguçada de Economia Política, vide outros filmes igualmente ótimos: O Corte (Costa-Gavras) e Dois Dias, uma Noite (dos mesmos Dardenne).

    Desejo força pra quem se encontra nessa também!
    Abraço!

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