Um Dia de Chuva em Nova York, de Woody Allen

Com Woody Allen, até o material mais bobinho e manjado pode dar vida a um filme digno – ou mesmo a um grande filme. Basta lembrar A Rosa Púrpura do Cairo, de 1985, no qual uma moça (Mia Farrow) interage com o herói romântico que deixa a tela do cinema e, na companhia dele, na Grande Depressão, vive uma impossível história de amor.

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Para Um Dia de Chuva em Nova York, Allen elege outra vez a personagem cínica, rapaz que dá vazão às suas formas: alguém que prefere a aposta à certeza das carreiras, a aventura ao comodismo da namorada da faculdade. E, de novo, o diretor prefere a comédia indolor, o efeito bobo que, nesse caso, tem apenas uma ou outra saída com brilhantismo.

Seu protagonista é Gatsby Welles (Timothée Chalamet). A cidade, Nova York, é um espaço de acidentes, sonhos, pesadelos. A metrópole não serve a outra coisa senão ao imprevisto. A chuva é a representação da inconstância. Gatsby é ali quase um estranho, ainda que seu tipo – o do jogador desiludido – bem serviria a esse seio.

Como a menina deslumbrada que foge para o cinema nos dias da Depressão, ele e sua namoradinha serão absorvidos pela Sétima Arte que ganha as ruas, os restaurantes, passa a um estilo de vida: os cineastas e outros envolvidos com essa indústria são figuras afetadas em festas chiques, perseguidas por paparazzi, não mais limitadas a templos.

Companheira de Gatsby, Ashleigh (Elle Fanning) vai a Nova York entrevistar um diretor (Liev Schreiber) e termina de carona, à chuva, com um roteirista (Jude Law), a presenciar confusões, além de flertar com um ator famoso (Diego Luna). A certa altura, vai parar no belo apartamento do astro, em situação semelhante à da poética prostituta de Noites de Cabíria, de Fellini. Com a chegada da titular, tem de se esconder.

Mas é Gatsby quem mais importa em Um Dia de Chuva: sem a namorada ao lado e com os planos desfeitos, está entregue à teia de acidentes. À chuva. Em andanças, é convidado a fazer pequeno papel em um filme de equipe reduzida, de um jovem diretor do tipo que corre riscos e luta contra o tempo antes que a chuva atrapalhe.

Em incursões por pequenas histórias de amor e sorte, Allen abre-se a pequenos milagres, como se esfregasse na face do público a irrealidade que permeia – a começar pelos tons oníricos, ora dourados, ora escuros, da fotografia de Vittorio Storaro. O milagre em questão está no beijo casado ao início da chuva, como se – outra vez para pensar nas intempéries como reflexo do incontrolável – tudo mudasse em seu percurso.

Beija a bela e leve Chan (Selena Gomez), que não lhe facilita nada, que insiste em ser ela própria, pequena e básica, também apreciadora da inegável destreza de Gatsby em lidar com a vida. Em oposto estão as limitações de Ashleigh, que passa de repórter à notícia naquele dia de acidentes, de excessos, nas ruas da cidade com a qual não combina.

Allen escancara o homem como figura amarga, a desviar do essencial, mesmo em investidas agridoces. Em Um Dia de Chuva, o dinheiro ganhado por Gatsby nos jogos é lançado em uma mesa como se não tivesse importância, sem lhe render emoção. Antes de revelar a bolada, assemelha-se ao perdedor, alguém que não encontrou (ainda) o que procura.

(A Rainy Day in New York, Woody Allen, 2019)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Café Society, de Woody Allen

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