O Irlandês, de Martin Scorsese

Ao volante do caminhão, Frank Sheeran não é novo como se espera, nem velho demais. Recaem sobre ele a plástica, o filtro, milagres de tempos digitais que o tornam figura embalsamada. Para todas as épocas – do velhinho no asilo que conta a história ao motorista de caminhão (ou, antes, ao soldado) – há apenas um ator: Robert De Niro.

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É, por um lado, uma escolha arriscada em O Irlandês; por outro, a impressão de que Martin Scorsese dobra-se ao clássico, à forma que não existe mais. Ao homem velho que recorda ou às suas encarnações mais jovens, construirá o mesmo traço, alguém levemente desbeiçado, como se De Niro não fugisse, ainda, às suas comédias recentes.

Nas cenas de juventude, é um tanto apático, desajeitado, de difícil mobilização; naquele caminhão, é como o George Raft de Dentro da Noite, de Raoul Walsh, venerado pelo cinéfilo Scorsese. Não lhe escaparia a oportunidade de emoldurar a personagem e o próprio cinema.

O Irlandês, por sinal, está impregnado de cinema, ainda que Scorsese não jogue com referências óbvias. Sua cápsula do tempo faz pensar em tudo o que ele e os diretores de sua geração fizeram, em todos aqueles grandes filmes que ele e outros de sua geração assistiram nos cinemas dos anos 50 e 60, de autores que, para um cineasta em ascensão, à época da Nova Hollywood, só podiam ser copiados com o dinheiro dos grandes estúdios. À contramão da sujeira e do realismo de Caminhos Perigosos emerge o realizador de New York, New York – e, mais tarde, deste O Irlandês.

Para contar a história de Frank Sheeran, nada escapará ao falso, às sombras dos bares com ornamentos vermelhos, frequentados por homens velhos, engravatados, óculos escuros a despeito da penumbra. É a história da memória e seu peso e, por isso, em véu tão enganador, a história de alguém que se embalsama, insiste em ser o mesmo.

Um grande filme sobre Sheeran e suas relações com poderosos, gente como Russell Bufalino (Joe Pesci) e Jimmy Hoffa (Al Pacino), de influências que vão do crime aos sindicatos, para desembocar na palavra-chave, na maior das instituições americanas a serviço do fascínio do cinema: a máfia. Nessa longa história de cortes no tempo e indicações futuras de mortes e prisões, Sheeran aprende a aceitar “as coisas como elas são”.

Para Bufalino, ele será o capanga de confiança, a quem se entrega o pior dos trabalhos, a pior “parede” para se “pintar”, como matar um companheiro. Nessas personagens ainda estão salientes a consciência e o arrependimento. Não aderem à morte fácil seguida pela diversão, como se vê em Os Bons Companheiros, um dos melhores trabalhos de Scorsese.

E se Bufalino vive o chefe que não faz questão de publicidade, Hoffa será o oposto. O Irlandês, nesse sentido, é um filme sobre o conflito entre as imagens do mafioso e do político – e sobre o que elas representam. Quando perde poder e seu sindicato, restam a Hoffa apenas a imagem e o discurso, incapazes de blindá-lo por completo.

Sheeran paira entre ambos, sindicalista e assassino de aluguel ao mesmo tempo. Seu esforço não leva a outro lugar senão à solidão do asilo, às noites com a porta entreaberta, fresta de segurança a quem continuará perseguido pelos seus e outros fantasmas, das tantas pessoas que matou e carrega na memória. Scorsese não precisa mostrar sua morte.

A certa altura, Sheeran é homenageado por seus trabalhos à frente de uma das unidades do Sindicato dos Caminhoneiros. Ao palco, dá a Hoffa a oportunidade de fazer o que quiser; na plateia, entre outros grandões, Bufalino assiste ao espetáculo de bons modos enquanto o convidado rouba a cena e o homenageado pouco se preocupa.

A filha de Sheeran, Peggy (Anna Paquin), desde pequena viu-se seduzida por aquilo que o político Hoffa projeta e, com olhos voltados a frestas e janelas de sua casa, desejou distância do pai, matador e violento, sempre com alguma desculpa para sair de casa no meio da noite. Moça inocente, incapaz de enxergar as entranhas do sistema.

Na noite de homenagem ao pai, ela dança com Hoffa, como era de se esperar. A exemplo de O Leopardo, a celebração marca um rito de passagem, noite em que o rei destronado tem seu destino definido por um poder paralelo, maior e às sombras. O antigo rei ainda acredita ser rei, não reconhece a passagem do tempo, as transformações.

Na mesma noite, Bufalino presenteia Sheeran com um anel de ouro – objeto no poder de pouquíssimos homens. Desse modo, o segundo tem igualmente o destino definido. O anel simboliza o poder de um grupo, não um gesto de apreço. O Irlandês mostra como o poder desse grupo sobrepõe-se ao que ainda resta de bom entre esses seres: a amizade.

(The Irishman, Martin Scorsese, 2019)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Como Scorsese chegou ao projeto de A Cor do Dinheiro

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