Clímax, de Gaspar Noé

A aparente simetria da dança dá vez ao caos. A mistura de cores em um mesmo quadro logo perde espaço às tonalidades fortes de um único ambiente, como se a cada sala, menor ou maior, um estado fosse encontrado – do vermelho ao verde, do verde à escuridão. As delimitações das cores, em Clímax, delimitam também um estado selvagem.

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O diretor Gaspar Noé busca o incômodo. Dá-se melhor que em seus filmes passados. Outra vez expõe um mergulho no qual respingos de racionalidade aos poucos dão lugar ao efeito lisérgico. Os voos de um espírito em Viagem Alucinante e o esfarelamento de um homem apaixonado em Love podem ser equiparados aos efeitos de uma droga.

Em cena, a perda do controle – ou a revelação de quem realmente essas pessoas são. Todas elas. A droga faz com que sejam vistas, sentidas, com que detonem a si próprias, que se dispam das regras da boa convivência. A festa de flertes e danças frenéticas afunila seus atores à violência ou ao prazer, ou a ambos ao mesmo tempo.

Talvez a droga seja um gatilho. O desejo e a violência estavam ali, trancados, impedidos de escapar. E isso não quer dizer que alguém não tenha colocado algo na bebida. A droga faz sentir o que se sente quando se resolve ver a verdade, parece dizer o diretor. A droga oferece a regressão ao passado, às pessoas como eram.

Na festa, os dançarinos celebram a coreografia, cada um em seu ponto, em sua linha, em seu tempo, o perfeito entrelaçar de corpos. Nem parece um filme de Noé: personagens em sintonia com o espaço enquanto a câmera sobrevoa-as do início ao fim da pista, ao DJ que dita a velocidade daqueles que ainda se prendem a movimentos ensaiados.

Os convidados dessa festa desesperam-se e começam a brigar após a suspeita de que há algo na bebida. Passam a acreditar (e sentem) que estão entrando em estado de alteração (e estão). Começam a procurar o culpado – outra das tentativas de manter a ordem a todo custo. Ou, para Noé, como a busca pela ordem igualmente faz ver outro extremo: o homem selvagem sob a forma do inquisidor, disposto a fazer valer alguma regra.

Não há outro caminho senão o da destruição – ou o da autodestruição – nos filmes do diretor. Na busca para manter o controle enquanto o mesmo se perde, a reação de uma mãe é trancar o filho pequeno em um quarto escuro, sala de controle da energia elétrica do salão. Tranca-se aquele que tudo liberta, sem o autocontrole adulto: a criança.

Para fora, a neve, o frio, a face inóspita do branco – a confrontar as cores que se misturam ou se alteram no interior dessa escola de dança posta abaixo. Dos belos movimentos de câmera migra-se à confusão visual, ao vale-tudo que inclui a inversão da imagem banhada ao vermelho, sexo e sangue, gritos de terror.

Na pele de uma das garotas da festa, Sofia Boutella aparece loura, livremente tingida. Pelos corredores de meias-luzes, sofre, briga, chora, beija, tenta encontrar a saída; para todos, ou quase todos, não se vê solução: para viver sob tal efeito é necessário algum controle, o que talvez só seja possível ao responsável pelo crime. Há quem consiga viver assim.

(Climax, Gaspar Noé, 2018)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Amor, memória e sexo em dois filmes de Gaspar Noé

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