Amor, memória e sexo em dois filmes de Gaspar Noé

A ousadia justifica alguma reverência à obra de Gaspar Noé. O diretor filma figuras sem esperança, desesperadas, o sexo e a morte de maneira direta, niilistas em circulação incessante que dão de cara com a porta fechada, com demônios internos. Em dois de seus filmes mais famosos, sentimentos e relações físicas confrontam-se.

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De 2009, Viagem Alucinante conta a história de Oscar (Nathaniel Brown), pequeno traficante que vive em Tóquio com a irmã Linda (Paz de la Huerta). Após ser assassinado pela polícia enquanto tentava descartar drogas em um banheiro sujo, seu espírito vaga, voa sobre a cidade, ganha uma visão privilegiada. É obrigado a ver o passado e o futuro, a penetrar corpos e mentes, a assistir inclusive o sonho da própria irmã.

Outra volta ao passado é proposta por Love, de 2015: os dias de dor de Murphy (Karl Glusman), casado com Omi (Klara Kristin), pai de um filho, atormentado pelas lembranças da bela Electra (Aomi Muyock). O sentimento, aqui, está atrelado à carne: para Noé, não se separa o primeiro da segunda, confrontando o que o cinema fez – fora as exceções de praxe – até então: preservar a personagem ao explorar seu interior.

Há um pouco dessa preservação em Viagem Alucinante, não se nega: o filme é a história de um olhar pela cidade de luzes, por um Japão moderno e sujo ao mesmo tempo, esculpido à vertigem. Oscar revive para ver o que restou dele, de seu velho mundo, das consequências de sua vida (e de sua morte).

Descobre como ficam os amigos e a irmã que ele mesmo levou a Tóquio, da criança com seu urso de pelúcia à stripper de boates fortemente iluminadas, de raios entre a penumbra, de música alta – ambiente com o qual o mesmo Oscar aprendeu a se habituar, e ao qual lançou sua aparente irmã ingênua para que a mesma se formasse mulher.

O problema é que, nessa história de um olhar, o desejo pela irmã – nos poucos instantes de vida do início, na observação dos vivos ou nas lembranças do passado, quando voltam as tragédias pessoais – é evidente. A dor de uma relação mal-entendida permeia o filme todo, com o olhar à ninfeta, à irmã desejável.

Nesse filme de “navegação”, no qual o espírito sobrevoa a cidade e assiste ao post mortem, em que a câmera prioriza a invasão, a quebra das paredes e planos-sequência, o problema é o desejo sexual, não os sentimentos. Portanto, situação oposta à de Love, no qual os sentimentos – em filme tão carnal – são as fontes do conflito.

De Oscar fica o olhar – ou, no máximo, o reflexo no espelho. Invasão que, às aparências, confere ao público algum privilégio, aparente acesso total pouco a pouco negado. De Oscar nascem retornos ao passado, pontos que explicam seus desejos, como o olhar aos seios da mãe, desejos de criança, mais tarde os de um homem formado.

A tortura de Oscar assemelha-se à de Murphy: em determinado ponto, esses protagonistas contam com suas memórias, espécies de assombração, dor, ferida aberta. A um como ao outro, fica o imobilismo, a impossibilidade de mudar algo – reencarnar para amar e salvar a irmã, reencontrar a mulher amada, agora desaparecida.

Noé inclina-se à narrativa não linear, às idas e vindas no tempo, à união de peças que aos poucos explicam os problemas das personagens. Limita-se à ação de choque, à violência e à penetração, à tentativa de superar os próprios instantes selvagens que propõe. Fracassa ao fim das duas jornadas, sobretudo no vazio Viagem Alucinante.

Love, mesmo com tantos problemas, tem uma proposta instigante: fazer um filme sexual e sentimental ao mesmo tempo, ao passo que essas questões sejam equivalentes e elevadas à potência máxima – algo que Nagisa Oshima fez antes e melhor em O Império dos Sentidos. Ao tentar radicalizar, Noé leva ao esperma, ao pênis no interior do corpo feminino. Se a alguns causa deslumbramento (ou constrangimento), a outros surte efeito algum.

(Enter the Void, Gaspar Noé, 2009)
(Idem, Gaspar Noé, 2015)

Notas:
Viagem Alucinante: ★☆☆☆☆
Love: ★★☆☆☆

Foto: Love

Veja também:
Sozinho Contra Todos, de Gaspar Noé

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