Sozinho Contra Todos, de Gaspar Noé

A câmera avança como se simulasse uma chicotada. O ponto final é seguido pelo som de um tiro. Sem surpresas, o cineasta Gaspar Noé conta uma história em que esses tiros fazem sentido, em que os pensamentos do protagonista são talhados a golpes de faca. Por consequência, as palavras golpeiam o público, passam às imagens.

Curta nossa página no Facebook e siga nosso canal no YouTube

Nada fácil acompanhar alguns dias na vida desse homem. Ou seriam algumas horas? Sabe-se do pouco que ele é pelo pouco que carrega: além da arma que encontra na casa de sua mulher grávida, leva trocados no bolso, depois algumas moedas – insuficientes para pagar sua última ida ao bar, quando descobre alguém com uma arma maior que a sua.

O homem ao centro de Sozinho Contra Todos é o açougueiro. Interpretado por Philippe Nahon, ele chega ao espectador por confissões interiores, pela história resumida no início, depois pelas poucas horas em que corre contra o tempo, em que enfrenta a si mesmo, entre pensamentos, imaginações, o reencontro com a filha.

Nada alivia. Tudo é tormento. A violência pertence mais à palavra que às atitudes de uma personagem que, no fundo, não consegue concretizar sequer os devaneios que a ligam ao desejo de morte, à violência extrema. Depois de espancar sua mulher grávida, vê-se obrigado a fugir com a arma que roubou da casa em que vivia, lar simples do qual destoa.

Da pequena cidade vai a Paris, aos seus arredores, após pegar carona. O filme não deixa ver muito: corta-se o corpo, pensamentos mesclam-se às ações, desejos ganham vez e, sem avisar que são desejos ou projeções, obrigam o público a retornar ao ponto inicial. O interior do homem duro reflete o visual simétrico, às vezes falso, pelo qual se sabe que esse ser abjeto pensa em parar, aprisionado em espiral niilista, sem nunca oferecer saída.

Suas ideias assustam. Noé cria o pior das pessoas em um espaço que aspira à normalidade – o que o torna ainda mais assustador. No fundo, não difere de muitos: Sozinho Contra Todos é sobre um homem pequeno, perdido, sem esperança, alguém que cresceu aprendendo a não acreditar nos outros, a construir sua própria moral e seguí-la.

“Viver é um ato egoísta. Sobreviver é uma lei genética”, afirma, sempre em voz interior, a determinada altura da jornada. Entre tantas palavras, toca nas relações entre pais e filhos (para ele, algo que guarda fingimento), na verdade do sexo ao assistir um filme pornográfico (“Se nasce com um pau, só será útil se enfiar em tudo o que é xana”) e na estranha conclusão que lhe permite o incesto, como se este pudesse ser explicado pelo amor à filha, a única pessoa que ainda é capaz de amar – não sem cometer um crime.

O suicídio pode ser a saída. O protagonista chega a elevar a arma à garganta. Em mente, puxa o gatilho. A cabeça estoura, o sangue tem relevo. O devaneio ajuda a entender, outra vez, a pessoa perturbada, alguém cujas palavras – as “facas” – fazem-na crer no assassinato da própria filha em um dia “como outro qualquer”, ao qual alude a imagem final.

Conhecido por não fazer concessões, o diretor argentino realiza um filme sobre a mente de um homem perturbado, ignorante, que passa a questionar a moral que governa sua nação para tentar justificar seus desvios. Ao lançá-lo ao quarto em que concebeu a filha e no qual, anos depois, está prestes a abusar dela, Noé aproxima violência e vida, morte e nascimento, relações aparentemente conflitantes que explodem em figura nada inspiradora.

A narração interna tem força literária. Para fora, imagens de alguém sem destino, de face fechada, que nem sempre deixa ver o equivalente ao pensamento. Por algum motivo difícil de explicar, ele segue vivo com sua arma e três balas, a declarar fúria àquilo que o circunda.

(Seul contre tous, Gaspar Noé, 1998)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Henry: Retrato de um Assassino, de John McNaughton

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s