O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla

As mulatas sambam enquanto o fogo consome o lixo, ao fundo, enquanto os raios das naves espaciais atingem a Terra, enquanto as torres de comunicação representam a modernidade. A chave é o absurdo, o que não deveria se conectar e ainda assim se conecta: O Bandido da Luz Vermelha faz sentido ao insistir no caminho oposto.

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As misturas – o lixo, as mulatas, as naves, a narração, o crime – mais aproximam ao país em questão do que afastam. É dessa curiosa sensação – sobretudo sensação – que trata Rogério Sganzerla em seu primeiro longa-metragem: é preciso nadar contra a corrente, inverter tudo, recusar o caminho já experimentado para encontrar o real.

O bandido é verdadeiro em seu próprio absurdo. Só assim fará sentido: o fundo amplia-o, engrandece-o, torna-o real em excesso. A cidade, São Paulo, e a Boca do Lixo. É por ali que o protagonista perambula, ambiente de Sganzerla e de outros que marcaram época com o chamado Cinema Marginal. Aos cantos, muitos esbarram no bandido, todos com inclinações tão cômicas quanto trágicas, imitadores autênticos, clichês inesquecíveis.

O bandido não quer ser mais que esse clichê do pistoleiro malvado, lenço à face, alguém que arromba casas, à noite ou de dia, para levar dinheiro, joias, que “passa fogo” com naturalidade indescritível. Sua arma mais parece um chicote. Atira – como outros – para todos os lados, dos carros, nas casas, em qualquer um que pareça suspeito.

A primeira parte é do bandido. Aos poucos ele apequena-se, ou simplesmente dá espaço aos outros, ao Brasil urbano que se despe. Outras personagens ganham destaque. Uma teia salta à vista, reino do impensável, dos políticos corruptos, policiais boçais, prostitutas informantes que curtem seus momentos e viagens, desalmadas como são.

O que vem depois do bandido, da metade para frente, é justamente o que o projeta: um país ao contrário, que corre pelo oposto, e que só pode ser compreendido – em 68, ano do AI 5, das perseguições, das maluquices à rabeira do estrangeiro, da politização sem volta de Godard – se visto dessa forma: o bandido é peça, é parte, não o todo.

Infelizes os que foram em busca da história de um real “bandido da luz vermelha”. Sganzerla estava ocupado demais com as irrealidades de um país sem futuro para procurar a massa real das manchetes. Para ele, estas são papel picado, substância para lançar as influências do filme policial americano, barato, à comédia terceiro-mundista.

Sganzerla nunca escondeu suas influências. Pegou um pouco de Hawks, Fuller, Godard e Mack Sennett. Pegou outro tanto de Welles e, ao fim, com naves e mulatas ao fogo, fez sua própria Guerra dos Mundos. Os radialistas (vozes de Hélio de Aguiar e Mara Duval) forçam o efeito barato, sensacionalista, para dizer que o mundo está perto de acabar.

O bandido é o herói do faroeste às avessas: se os bons homens do cinema americano chegam na pequena cidade para restabelecer a ordem (do mundo), o pistoleiro brasileiro fará o oposto. Seu filme é cômico sem perder o caráter profundo, o foco social, o lado “sério”. Para Sganzerla, a retroalimentação entre real e absurdo vai do início ao fim.

Jean-Claude Bernardet observa que O Bandido da Luz Vermelha é um caso em que a paródia introduz-se no cinema erudito. O que talvez explique seu lado popular, ainda que marginal. Poderá ser as duas coisas em uma, nesse estranho milagre feito aos borrões e às irregularidades, de um pequeno gênio em seu filme de estreia.

Como não pode fazer nada, o protagonista avacalha. “Quem sou eu?”, ele questiona, enquanto surgem cenas de um faroeste. Para fugir, corre ao cinema, onde devora uma espiga de milho ao lado das cadeiras vazias. Nas ruas, anda como rei. Mas logo é esmagado, revela-se peça da farsa, feito protagonista em um mundo em que sobrevive apenas como simbologia do mal, da bandidagem. É apenas uma consequência: fruto de um aborto mal realizado, filho expelido, usado e jogado fora.

Nasce como bandidinho atirador, em meio ao lixo, e dali foge com uma taxinha presa no pé. Há de sentir dor, sempre. Ao fim, retorna ao lixo, destino natural. Após tentar se matar algumas vezes, vê a possibilidade de se enrolar ao fio de energia. Antes que retome o protagonismo, deixa espaço para bandidos maiores.

Surge o político (Pagano Sobrinho) em papel esperado, com frases manjadas. “O petróleo é nosso”, afirma, antes de soltar suas propostas: dar chicletes para as crianças pobres mascarem e picaretas elétricas para os camponeses, entre outras. Destronado, o bandido projeta vingança. Difícil demais, a essa altura, duelar com o político, o candidato da Boca do Lixo, figura indispensável a esse país ao contrário, prestes a explodir.

(Idem, Rogério Sganzerla, 1968)

Nota: ★★★★★⤴

Veja também:
Um far-west sobre o Terceiro Mundo

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