Ford vs Ferrari, de James Mangold

A criança é fundamental ao espaço em que adultos trocam pancadas e arremessam ferramentas contra o outro. A cada curva dos carros em alta velocidade, a cada escolha importante, enfim, a cada desenlace, a câmera volta para sua expressão curiosa, o espírito infantil que resiste: eis um filme nostálgico e que se nutre desse olhar.

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O olhar do filho ao pai, do menino aos gigantes, os mais velhos, homens cuja graxa pelo corpo torna-os um pouco metálicos, aparentemente resistentes como as máquinas que comandam. Em Ford vs Ferrari, o menino é Peter (Noah Jupe), filho do grande piloto Ken Miles (Christian Bale), convocado pela Ford para enfrentar a Ferrari.

As corridas dão-se em 24 horas. Os homens testam seus limites, espatifam-se com suas máquinas sobre os outros. Viciado nesse tipo de perigo, Ken não tem filtros na fala e confronta justamente o que a Ford representa: a produção em série, crescida graças a engomadinhos que, ao contrário dele, não tocam na graxa.

Quem banca Ken para conduzir o carro das disputas – enquanto o mesmo filho nunca deixa de observar e em momentos soa mais adulto que o pai – é Carroll Shelby (Matt Damon), piloto fora de ação, agora homem de negócios, o oposto a Ken: se necessário, um engravatado para subir no palco e fazer seu discurso alinhado aos planos da Ford.

Apesar do título, Ford vs Ferrari não é sobre a disputa entre duas grandes fábricas de veículos. O verdadeiro conflito ocorre entre pilotos e a estrutura que os envolve, o que inclui justamente engravatados capazes a sabotar alguém, se preciso, para ganhar a foto e a publicidade necessárias. Para que homens como Ken possam correr é preciso que existam homens como Shelby, nem por inteiro vendido nem tresloucado.

Para que todos esses homens pareçam maiores é preciso que o olhar inocente – distante mas próximo, o que soa, é verdade, paradoxal – esteja por ali. O recurso da presença infantil, habilmente utilizado pelo diretor James Mangold, permeia o mito (nos outros) e a possibilidade de que tudo seja mesmo real, relação pai e filho.

Nas corridas, com alguma frequência esses homens encaram-se, cada um em seu carro, como jovens em rixa, ou como produtos de um desenho animado no qual a disputa e a brincadeira, em algum ponto, parecem se mesclar. Homens e máquinas como objetos de metal, não raro amassados, arranhados, sujos, com olhos fixos na pista nas 24 horas seguintes.

A mesma pista que derrota o piloto, Shelby, tomado por problemas do coração, ou do cérebro. A ansiedade e a elevação dos batimentos desviam-no aos boxes, fazem dele o observador necessário, nem dentro nem fora por completo, alguém que recorre a remédios e, como um vício, precisa ouvir o ronco do motor que conduz – como na cena final.

Ele é o certinho. Ken é o desleixado. O primeiro tem algo a admirar quando se trata do outro, seu amigo: como poucos, reconhece cada detalhe do motor, da potência à necessidade de leveza, como se ele próprio fosse parte do objeto metálico. Para alguém que carrega as respostas, os contratos, que aceita subir em palcos para elogiar companhias gigantes, Ken revela doses de desdém. Não só para ele, um pouco para todos.

Bale tem o tipo certo àquele que não se dobra às fórmulas da publicidade. Em momentos, é visto com a cabeça levemente abaixada, lábios espichados, como se estivesse muito perto de decifrar uma charada. Observa com atenção todas as besteiras que os outros precisam dizer. Sem surpresas, Ken prefere se entender com as máquinas.

(Ford v Ferrari, James Mangold, 2019)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
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