Quando o Amor é Cruel, de Luigi Comencini

O filho mais velho está em zona de transição: ao mesmo tempo sabe mais que o irmão mais novo, do qual segredos são guardados; ao mesmo tempo não tem maturidade para encarar os problemas do mundo adulto. Sem que os outros percebam, ele é golpeado pelos sentimentos, posto de lado enquanto busca, a todo custo, o amor do pai.

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À noite, vê-se de olhos abertos para escutar histórias contadas ao irmão, na cama ao lado. Ou para ouvir a tempestade que tanto causa medo no mesmo irmão, na cama ao lado. Quando o Amor é Cruel é um desses filmes que se prende aos olhos da criança, quase tenta entendê-la à medida que flerta com seus sentimentos ou sua indiferença.

O diretor Luigi Comencini não se prende apenas à dor. A saída é diluí-la nas voltas do protagonista, fugas ao redor, pontos em que se perde por não entender o que realmente ocorre para dentro ou fora da grande casa. Cresceu o suficiente para ignorar trovões, não para desviar das histórias que o pai conta ao irmão, com as quais não mais pode contar.

Nessa transição reside a tristeza desse filme especial, desse jogo de sentimentos, desse desvio constante às traquinagens típicas da infância – a despeito de todo o aprisionamento que a casa pode oferecer. Contra os meninos, nada pode. Eles correm, escondem-se, brincam e, para o desespero da governanta que a certa altura joga a toalha, arriscam-se.

A grande casa guarda a memória. Espaço antigo à contramão da infância, com garotos fora da moldura, que não podem ser – e não serão – os belos meninos de bochechas rosadas das obras de arte, de uma certa infância idealizada casada aos contornos aristocráticos. O filme de Comencini explora essa junção frustrada.

A grande casa ainda assim é necessária, dá o exato tom da tragédia que passou, ou da que está para chegar. Dá aos garotos a aparência do vazio que suas vidas tornaram-se após a morte da mãe. Sem ela, na ausência constante do pai, existem para se libertar desse cenário de ares ultrapassados, inconciliável com a forma com que vivem.

A infância ocupa o centro. O filho mais velho, Andrea (Stefano Colagrande), sabe que a mãe morreu e não pode contar ao mais novo, Milo (Simone Giannozzi). O pai, interpretado por Anthony Quayle, dá mais atenção ao pequeno, como se acreditasse que ele é o elo fraco, como se precisasse protegê-lo de tudo o que o cerca.

A infância é esse período de incertezas, de sustos, da crença de que se pode fazer o que quiser – aqui com crianças sozinhas, ou quase, vítimas de doenças e acidentes. O mais novo tem febre. O mais velho tem de cuidar dele enquanto investe em aventuras, como ir para a cidade de bicicleta ou testar a força de um galho de árvore com o próprio peso.

A personagem ausente está ali o tempo todo. Com as crianças, o drama em momentos se converte em terror, como na cena em que Andrea sai da casa para então terminar no quarto da mãe, em frente à pintura. Ali, com a menina de cabelos louros presa à parede, enxerga a suposta perfeição, algo eternizado, ideal de beleza, imagem que, ao fim, funde-se ao corpo do garoto. O que nunca será, o que de fato é.

A vida é leve e frágil. As estruturas físicas servem para guardar a memória, ou para despertá-la. No início, o pai volta ao fim: caminha pelos jardins da mesma casa para encontrar o que deixou passar, o que não viu, o que lhe escapou ao longo de uma vida de diálogos com inúmeras pessoas de outros países. Justo ele, um diplomata. A ausência do diálogo cobra seu preço. O filho morto é agora parte da casa, de seu passado.

(Incompreso, Luigi Comencini, 1967)

Nota: ★★★★☆

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