Bye Bye, Hitler

Thea aderiu de corpo e alma ao nazismo. Por ela, eu deveria ter aceito o convite que Goebbels [Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler] me fez, pessoalmente, para assumir o comando do cinema do 3º Reich. Preferi deixá-la e sair do país. Thea já morreu [em 1954].

 

(…)

 

De qualquer modo, O Testamento do Dr. Mabuse não agradou Goebbels.

 

Na verdade, já havia tido um problema com meu filme anterior, M, o Vampiro de Düsseldorf. Foi meu primeiro filme falado e, como não era uma produção da UFA [o maior estúdio da Alemanha], mas uma produção independente, pude realizá-lo com a mais completa liberdade. Talvez por isso ele seja até hoje um bom filme. Antes de iniciar as filmagens, tentei alugar um hangar de zepelins onde havia trabalhado antes, mas seu proprietário, estranhamente, recusou a minha oferta. Só depois de muita cerveja, fiquei sabendo o motivo da recusa: o dono do hangar desconfiava que o filme, então intitulado Morder Unter Uns (Assassinos Entre Nós), era contra eles – os nazistas. Não era. Vinguei-me deles em O Testamento do Dr. Mabuse, colocando na boca do lunático Mabuse todos os slogans dos nazistas. O dr. Goebbels não gostou e proibiu o filme.

 

E depois o convidou para uma conversa.

 

Sim. Não havia outra opção: ou eu ia conversar com ele ou o filme continuaria preso. Foi uma experiência extremamente desagradável passar por todos aqueles longos corredores do ministério da Propaganda, protegidos por soldados armados até os dentes. Para minha surpresa, Goebbels não se referiu aos slogans nazistas que eu havia posto na boca do dr. Mabuse. Apenas sugeriu que o personagem fosse assassinado, no final, por uma turba enfurecida. Depois, contou que ele e Hitler haviam visto algumas fotos de Metrópolis (quais, exatamente, não sei) e chegado à conclusão de que eu era o homem ideal para assumir a direção do cinema nazista. Enquanto ele tentava me explicar por quê, eu dava voltas à imaginação para descobrir como faria para tirar meu dinheiro do banco, arrumar minhas coisas e fugir do país. De vez em quando eu respondia: “certo, ministro”; “naturalmente, ministro”; “sinto-me honrado, ministro”. Saí de lá em pânico. Àquela altura, o banco já estava fechado. Fui direto para casa, fiz a mala e deixei em Berlim todas as minhas economias.

Fritz Lang, cineasta, em entrevista a Sérgio Augusto, em 1965. Na ocasião, Lang veio ao Brasil para integrar o júri do 1º Festival Internacional do Filme. A entrevista foi publicada na Folha de S. Paulo em 29 de setembro de 1990 (“O cineasta que fez das trevas a sua luz”) e reproduzida no livro Folha Conta 100 Anos de Cinema (pgs. 50 e 51). Acima, cena de O Testamento do Dr. Mabuse; abaixo, Lang e Thea von Harbou, atriz e escritora com quem o diretor foi casado, e os bastidores de Metrópolis, dirigido por Lang, baseado no livro de von Harbou, também autora do roteiro.

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