As estátuas vivas de Leni Riefenstahl

A mulher é pura, inseparável da natureza que deixa para trás, a montanha e seus cristais presos em rochas. Não combina com as roupas rasgadas que lhe cobrem. É idealizada, selvagem bondosa com as curvas da bela Leni Riefenstahl, a qual os membros da parte baixa – homens e mulheres da cidade, velhos e suspeitos – chamam de bruxa.

Curta nossa página no Facebook e siga nosso canal no YouTube

Com essa imagem, Riefenstahl santifica sua personagem, em uma história sobre como a mulher incompreendida é vítima dos outros, e como a natureza que protege – sua terra, seu reflexo, sua beleza, sua própria vida – é igualmente explorada por gente em busca de enriquecimento. Depois de A Luz Azul, a cineasta e atriz seria convidada por Adolf Hitler para fazer o documentário O Triunfo da Vontade. É compreensível.

À nação que aspirava tradições, feita à imagem do povo natural e batalhador, capaz de escalar montanhas e viver em paz com os animais, as ficções de Riefenstahl ofereciam uma visão falsa mas necessária. A pureza da raça não era reconhecida por quem cultivava o mal e queria apenas explorar a montanha e retirar seus cristais.

A Luz Azul é visualmente um filme mudo, dono de sequências impactantes, ao qual a fala é mero acessório. A mitificação da mulher, ao cinema mudo, revela-se perfeita: a cineasta almejava expressões, sentimentos, efeitos naturais em personagens cuja profundidade prescinde o poder da fala.

O desejo de esculpir estátuas vivas certamente agradou Adolf Hitler, elevado ao cargo de chanceler em 1933, um ano depois do lançamento de A Luz Azul. No campo da ficção, o cinema de Riefenstahl está mais próximo de Dreyer e dos impressionistas franceses do que dos artistas expressionistas de seu país. Seguia à retidão humana, a certo endeusamento da ingenuidade e da beleza, ao contrário das distorções do expressionismo.

Vem então o convite de Hitler: filmar o congresso do Partido Nacional-Socialista em Nuremberg, em 1934. “Visualmente, é esmagador: Leni criou uma diabólica distribuição de volumes, onde se postam as massas humanas, perfeitamente simétricas e ordenadas, e um mar de suásticas, ocupando vastos espaços e fazendo contraponto à figura de Hitler, que parece pairar sobre aquilo tudo”, observa Ruy Castro, em ensaio de agosto de 2000.

De mão elevada como um arpão, o ditador passa do homem simples que a cineasta encontrou nos bastidores à figura imponente, a captar o olhar de todos, pessoas do povo e soldados, a servir à câmera em sua formação mítica, estátua viva capaz de bradar mensagens de força aos olhos atentos de seu público, e às vezes até parecer um pouco flexível.

A cineasta via-se obrigada a fazer esse estranho movimento à grandeza e a algum recuo, três passos à frente e um para trás, para que o agora gigante não fosse confundido com algo irreal por completo. Era preciso conferir a ele algum traço palpável – como no momento em que cumprimenta alguém que passa ao lado, ou quando deixa escapar o sorriso de satisfação.

Como a mulher perseguida de A Luz Azul, Hitler seria uma face a serviço da propaganda: o salvador que paira sobre a massa, que desce dos céus não para ser crucificado, mas agora para ser reconhecido, acolhido por carentes e idólatras. Como na citada ficção, o terror e a religiosidade confundem-se: pelos traços que aproximam Riefenstahl de Abel Gance, Hitler emerge como o novo Napoleão, em outro tempo e contexto.

O cinema a serviço das estátuas vivas – às formas perfeitas, às simetrias invejáveis – atinge seu ápice em Olympia. Nesse caso, a metamorfose é descarada: os atletas – ou seria o novo homem? – descem do Olimpo e se fazem carne.

Anos depois, Riefenstahl retornaria à ficção com Terra Baixa, filmado durante a Segunda Guerra e lançado em 1954. Extras em algumas cenas, ciganos teriam sido escolhidos por ela em um campo de concentração – o que a cineasta negou por anos. E por lidar com atores em papéis de ciganos e espanhóis – a começar por sua própria personagem -, imaginava-se que Riefenstahl não faria operação semelhante à de A Luz Azul.

Um pouco mais real do que antes, ela é a mesma, mulher alemã em figurino cigano, objeto de desejo. Representação pouco ou nada além de falsa. Uma bela dama “corrompida” pela cultura que veste, como em um baile à fantasia, amante de um homem poderoso, salva por um pastor de ovelhas. A força da natureza e os sinais divinos de novo falam mais alto: o novo casal termina livre, pela montanha, em caminhada rumo à luz, à salvação.

Foto 1: as filmagens de Olympia
Foto 2: A Luz Azul

Veja também:
Widerberg: “Bergman é triste porque, para ele, Deus se retirou”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s