Duas pequenas odisseias pelo Irã

As crianças correm entre o barulho, o caos da cidade: estão entre carros, entre adultos, em lojas e no trânsito ao longo de O Balão Branco e O Espelho, pequenos grandes filmes de Jafar Panahi. A protagonista do primeiro sai para comprar um peixe e perde o dinheiro; a do segundo é esquecida na porta da escola e que tenta voltar para casa.

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Em ambos, a humanidade das crianças resiste ao universo que desvia delas. Algumas pessoas ainda param para ajudá-las, dar informações, mas logo vão embora. Todo o som ao redor ajuda a compor o caminho difícil em um mundo de gigantes, de fala alta, de rádios que captam a atenção de todos – não delas – enquanto lançam notícias ou transmitem um jogo da seleção iraniana de futebol.

Em O Balão Branco, primeiro longa de ficção de Panahi, a menina (Aida Mohammadkhani) volta para casa depois de fazer compras e pede à mãe um peixe gordo e colorido que viu pelo caminho. Após muita insistência, consegue convencer o irmão a lhe dar o dinheiro. Em troca, o mesmo receberá um balão branco. O que vem em seguida é uma odisseia.

Ou uma pequena aventura realista nada incomum ao cinema iraniano. O roteiro é de Abbas Kiarostami, um dos principais nomes do cinema iraniano e que, anos antes, havia realizado o fantástico Onde Fica a Casa de Meu Amigo?, outro sobre uma jornada infantil, sobre um garoto que precisa encontrar a casa de um amigo de escola para lhe devolver seu caderno. Ao lado e ao fundo correm os sinais do mundo adulto.

Panahi prepara a entrada da pequena heroína de O Balão Branco a partir do plano-sequência da abertura, enquanto a câmera ainda procura, entre tantas pessoas, sua personagem. É quando a mãe invade o quadro pela direita; a câmera, em movimento panorâmico, prefere o caminho oposto.

Primeiro há o som do mundo adulto, o barulho, as relações – entre distância e velocidade. Vem a conexão entre pessoas e situações: a mãe dá vez à filha, a menina ao irmão, o acordo da compra do peixe ao balão branco. As camadas levam a menina à apresentação dos domadores de serpentes, em roda de homens, e, depois, à perda do dinheiro e à descoberta de que a nota alta caiu em um bueiro.

Tem a ajuda de uma velha senhora, reencontra o irmão e, mais tarde, conversa com um jovem militar que passa pelo local e percebe seu desespero – alguém que talvez esteja interessado apenas no dinheiro do bueiro, em frente a uma loja. Ficam ali até o encerramento, até a chegada de um menino com um balão branco.

O foco na criança é a desculpa de Panahi para apresentar a mecanização desse universo barulhento, sem paradas: em confronto com a mesma criança, e com a criança de seu filme seguinte, os excessos desse meio são ainda mais nítidos.

Como dizia François Truffaut, não é necessário introduzir “elementos poéticos” em um filme com crianças, pois estas já carregam poesia. No caso de Panahi, em O Balão Branco e O Espelho, da criança é retirado algum traço de interpretação. A câmera limita-se a captar seu movimento, sua espontaneidade, registro verdadeiro no qual ela posiciona-se às necessidades do realizador.

Talvez isso explique a revolta da outra menina, protagonista do filme seguinte, Mina Mohammad Khani, quando cansa de sua interpretação, ou da impressão de que está interpretando. Deixada na frente da escola, ela também entra em cena um pouco por acaso – após a câmera fazer outro movimento panorâmico.

Escolhida, ela fornecerá, até certo ponto, sua aproximação, seu olhar às diferentes pessoas que tentam ajudá-la a retornar para casa. A certa altura, a atriz desiste de seu papel: retira o gesso do braço, o véu e sai do ônibus. É quando Panahi inicia outro filme, um longa dentro de outro.

O cineasta não aceita o fim das filmagens. Propõe outro jogo: mantém ligado o microfone de Mina e, em distância considerável, continua a segui-la. A trajetória perde o traço da ficção. A garota – sem imaginar – será a mesma (ou quase) ao voltar para sua vida real.

No fundo, são as mesmas, e a situação é semelhante: o que se tem é a história – ou o registro – da criança que tenta chegar em casa, que busca a ajuda, que agora não aceita a câmera, servir ao cinema, àquilo que talvez seja contrário ao real. Panahi prova o oposto: o que se tem é o espelho.

A continuidade do filme tem a mesma personagem, a menina que precisa atravessar um oceano de pessoas, máquinas, pessoas a bordo de máquinas, ao som da partida da seleção iraniana, entre um acidente e outro, entre gente que fala sem parar. Sua odisseia termina com a porta fechada. Ela ignora o jogo do cinema, que não a ignora.

(Badkonake sefid, Jafar Panahi, 1995)
(Ayneh, Jafar Panahi, 1997)

Notas:
O Balão Branco:
★★★★☆
O Espelho: ★★★★★

Imagem ao alto: O Espelho

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